O seu engenho tem o quer que seja de epileptico: ataca trinta emprezas ao mesmo tempo: mobilias, machinas photographicas, installações electricas, bobinas, telegraphos, telephones, phonographos, campainhas de alarme, etc., etc.
Vencidas as difficuldades, contornadas, cortadas e limadas as peças, nova explosão de inadiaveis projectos interrompe a conclusão dos antecedentes; e assim, Nascimento, fazendo tudo, nada faz, porque a epilepsia do engenho dá ás suas obras a incommensurabilidade do Infinito: todas tiveram principio e nenhuma tem fim.
Como se pode explicar, pois, que, annunciada uma recita de Santo Antonio, ou da Morgadinha, este homem abandone immediatamente o seu meio, o seu sanctuario e enthusiasticamente se venha offerecer para desempenhar o papel de Mano Gaspar, ou de Boticario?
Pela extrema sensibilidade das suas faculdades affectivas.
Nascimento lê o drama, a comedia, ou a scena comica; a sua alma vibrou, agitou-se com o caracter d’este ou d’aquelle personagem; identificou-se com os sentimentos do galan, ou do comico; e, possuido de irresistivel enthusiasmo, abandona a officina, troca o alicate ou o saca-trapos pelo caderno almaço e lá vae para as muralhas metter na cabeça, em giros constantes—para traz, para deante—os periodos do papel.
Este enthusiasmo, em qualquer de nós—no Albino, por exemplo, que já representou de mulher, nos paysanducos, eximios na Comedia—seria uma coisa vulgar, insignificante; mas no Nascimento que nós conhecemos e que eu examinei na officina, revela uma enorme tensão de faculdades affectivas.
Os trabalhos do Brazão são correctos e são artisticos; mas este actor adquiriu já a physiologia dos sentimentos; os seus musculos contraem-se, por assim dizer, inconscientemente, independentes do imperio da vontade, como nas acções reflexas. Mostra no rosto a agitação d’um mar de paixões, quando na alma tem a tranquillidade d’um lago.
Alem d’isso, Brazão tem o scenario de D. Maria; tem o Keil, a luva do Baron; o talhe elegante, o perfil distincto, a perna flexivel, o bigode loiro, o monoculo—todas essas pequenas coisas que emmolduram e aristocratizam o actor.