Nascimento tem o desbotado scenario do nosso theatro, ainda saturado de irritantes aromas dos meios com cebolada que, ha annos, o meu amigo S. Lima arremessava ás fauces de toda a tribu pica-calcantes; tem a roupa de mabella; a rigidez linear da Ordenança conturbando a flexibilidade dos movimentos; a reacção dos acidos paralysando a acção dos nervos centrifugos; o ordinario marche! pruindo compassadamente na sola dos pés e na barriga das pernas...
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Examinado pelo prisma da Arte, Nascimento actor é—repito—um barbaro. Mas analysado pelo prisma do Sentimento revela-nos uma organisação especialissima, que seria a gloria de nossos palcos e da nossa terra, se um defeito organico a não prejudicasse.
Nascimento ouve uma valsa de Metra, uma symphonia de Berlioz; ouve Rubinstein e Sarasate, a Patti e a Nilsson. Permanece mudo, quedo, insensivel.
Tem nas mãos uma flôr mimosa: uma Captain Christi ou Bertha Mackart; uma Alba imbricata ou Countess of Derby; a violeta, o lirio, a sensitiva. Os dedos afastam-se e a bella flôr cae abandonada, cerrando as petalas...
—Não gosto de muzica; não gosto de flores—diz o Nascimento.
Poderemos acreditar na sinceridade d’estas palavras pronunciadas pelo homem, em quem os insipidos gracejos do Mano Aniceto exercem tal influencia e inspiram tal enthusiasmo que, arrancando-o da sua Thebaida, da sua officina, o expõem, vestido de amarello, á extatica contemplação dos loiceiros?
Não! Nascimento é accessivel á vibratilidade das commoções; os seus nervos sensitivos communicam ás cellulas cerebraes toda a intensidade dos enthusiasmos, mas o tal defeito organico—um enfraquecimento dos nervos centrifugos—oppõe-se á transmissão da força necessaria para a mechanica muscular e para a movimentação das situações dramaticas.
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