10-2-90.
Zinão.
XX
A questão ingleza
(NOTAS SOLTAS)
Alem-mar scintilla na escuridão a iris do abutre.
O leopardo rugiu, saltou, e cravou as garras ensanguentadas no velho Portugal.
Este enorme gigante que teve no encephalo, como cellulas, os craneos de Camões, de Gama e de Cabral; que teve por apophyses as columnas de Hercules, os rochedos do Bojador, do Boa-Esperança, do Razalgate e do Comorim; por articulações Angola, Moçambique, Mascate, Ormuz, Diu, Calicut, Malacca; por veias os filões preciosos de Sofala, de Minas e Cyaté, do Pegu e de Narsinga; por arterias o Tejo e o Zaire, o Quanza e o Limpopo, o Zambeze e o Mandovi, o Ganges e o Amazonas; por cabellos os cedros seculares do Novo Mundo; por musculos os braços de mil heroes; por thorax a amplidão de todos os céos; por limite visual a linha de todos os horisontes; por fronteira o circulo de todos os quadrantes; por dominio a vastidão de todos os mares; por fanal a luz de todas as constellações—esse colosso que teve por servos o Çamorim e os rajahs da India, por thesoiro os abysmos aquaticos de Borneo e de Ceylão; por sonhos os mythos do Preste-Joham; por pesadelos as tragedias de Alcacer-Kibir e de Tanger; e que pela rigidez do seu braço, pela heroicidade do seu valor, conseguiu a crystallização de todas as chimeras e a realidade de todas as phantasias—eil-o ahi, prostrado, corroido pelo fanatismo religioso que ha quatro seculos lhe ulcerou os membros, enfraquecido pelos caprichos de monarchas perdularios, aviltado pela phthiriase de cortezãos servis, cancerado pela ambição insaciavel dos aulicos traiçoeiros, decrepito, pobre, agonisante... mas não morto!
Não! Não está morta a Patria! Ha n’ella quatro milhões de cellulas; e se muitas são inertes ou inuteis, covardes ou egoistas, existe nas restantes força viva sufficiente para transmittir á musculatura do heroe decrepito a energia das grandes crises e o arrojo dos antigos feitos.
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