XXI
A manifestação dos artistas

Em 28 de janeiro, a Direcção da Assembléa Recreativa promoveu uma manifestação patriotica, préviamente annunciada nos jornaes da terra com a minuciosidade espaventosa d’um programma de S. Telmo ou da Agonia.

Não é meu intento censurar essa manifestação; mas, pelo simples facto de ella ter sido promovida por um grupo de artistas e de homens do trabalho não devo excluil-a do campo critico, onde com estes artigos analyso os factos mais importantes na chronica valenciana.

A meu vêr, essa manifestação teve uma origem que a absolve plenamente d’uns pequenos ridiculos que a amesquinharam. Originou-a um impulso de sincero patriotismo, e basta isso para escudar os promotores d’ella contra a rudeza da phrase com que verberei a fantochada de 14.

Se essa manifestação offerece alguns lados censuraveis, se teve peripecias irrisorias, se não me inspira hoje phrases de caloroso applauso e de sincera adhesão, os seus promotores devem-no, exclusivamente, ás impressões que nos seus espiritos deixou a grande rusga de 14. Aproveitaram parte do programma: musica, cortejo, vivas arruaceiros, procissões intra e extra-muros, etc., abandonando deploravelmente os meios que a Razão aconselha para, em occasiões identicas, se dar a qualquer manifestação um caracter significativo de energia, de sensatez e—sobretudo—de utilidade.

Não me rio perante as bandeiras que n’esse cortejo distinguiram a Arte, do Commercio, como estulta e imbecilmente o fizeram alguns dos illustres patriotas, comparsas na ignobil farça dos abbades. Essas bandeiras significam o trabalho honrado, o homem que labuta e moireja dia e noite no sustento da familia, e que nunca serviu de lacaio a qualquer magnate eleitoral para, á custa do Estado, coçar por ahi, nas esquinas, os seus setenta kilos de ociosidade; significam o artista que contribue efficazmente para a riqueza da nação; o commerciante que concorre com uma boa parte dos seus interesses para as despezas das nossas mais uteis instituições e não o eunucho indifferente a todos os impulsos da Civilização e que, arrastando uma existencia ignobil, como a da lapa eternamente presa ao rochedo, na valla commum dos inuteis desapparece, sem ter conhecido outra energia e outras sensações além das que obteve, comendo, bebendo e dormindo.

Passe, pois, o cortejo, porque perante elle, eu, descubrindo-me, exclamarei tambem:

Viva a patria!

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