E dizei-me agora, honrados artistas e commerciantes:
Se no dia trinta e um de dezembro, quando fechaes o vosso balanço annual, reconheceis que o passivo excede o activo—quando perante esse deficit encaraes, com olhar vacillante, o futuro, onde vêdes sombras e não auroras—se no anno seguinte uma nova especulação, uma nova industria vos proporcionar meios com que possaes capitalizar uns centos de mil reis collocados depois, á ordem, no Roriz,—se um dia o Primeiro de Janeiro vos annunciar a quebra d’aquelle banqueiro e, com ella, a perda do vosso capital, a destruição completa dos elementos com que esperaveis viver com abastança no futuro—acaso a vossa alma se póde regosijar com o Hymno do Rei ou com o da Carta?
Pois as situações são as mesmas.
Vós e a Patria tendes annualmente um enorme passivo.
O capital que estava no Roriz—o vosso futuro—é o dominio d’alem-mar—o futuro da Patria.
A noticia da fallencia é a noticia do ultimatum, com esta differença apenas: uma originou-se na adversidade dos negocios, outra na ambição d’um lord.
Vós sois a Patria; viveis n’ella; sois a alma e o braço d’ella.
A Patria é tudo isso que vos rodeia: familia e amigos, affectos e carinhos; é tudo o que ha de bom, de generoso, de nobre e feliz na vossa existencia; é a limpidez d’este formosissimo céo peninsular, a risonha paizagem do nosso Minho, a irradiação das nossas alvoradas, o oiro dos nossos crepusculos, o matizado dos nossos campos; é essa dulcissima melancholia que ao toque das trindades inunda a nossa alma com a toada longinqua das canções populares, é o nobre orgulho que em vossos olhos brilha quando escutaes a epopéa das nossas gloriosas façanhas; é essa formosa cabeça de velho que vos sorri, é a esposa carinhosa que vela a vossa doença, é a creança—esse pequenino sêr feito com raios de alvoradas e crystallizações de sorrisos—a quem chamaes filho[62].
Quem offender a Patria—offende-vos.
Quem a roubar—rouba-vos.