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Durante o trajecto do cortejo, a Musica tocou, por vezes, hymnos varios. Excluistes o da Restauração, que só os eunuchos da Rotina hoje podem admittir nas suas manifestações simontadas. Devieis dispensar tambem os outros: o da Carta e o do Rei.
O primeiro lembra a libertação da tyrannia, a emancipação dos direitos do cidadão, a queda do absolutismo, o inicio d’uma nova era de Progresso intellectual que devia esmigalhar as algemas de instituições odiosas e impulsionar-nos na bemdita estrada da Civilização, livres das trevas e dos espinhos que amarguraram os dias dos nossos antepassados.
Recorda, pois, um facto—a outorga da Carta—que trouxe jubilos, alegrias; e não é em horas de tristeza e de desalento que n’elle devemos procurar lenitivo.
O segundo solemnisou a coroação d’um monarcha—uma festa nacional em que houve bailes, recepções, salvas reaes, paradas, espectaculos de gala.
Pelo anterior argumento devia ser excluido.
O ultimatum inglez é, apenas, a primeira bala do assedio que essa côrte de debochados planeou contra o nosso dominio d’alem-mar.
A espoliação de Bolama que elles tentaram em 38; a de Goa, Damão e Diu em 39; a das ilhas de Lourenço Marques em 62; a redacção da Royal Charter que ultimamente concedeu a Lord Fife os terrenos a oeste de Moçambique; a necessidade que elles teem de possuir, na costa africana oriental, um bom porto que dê expansão ao desenvolvimento das colonias estabelecidas no interior á sombra de perfidos protectorados; as recentes ameaças sobre as ilhas da Madeira e sobre Lourenço Marques—revelam claramente o plano da usurpação violenta de que mais tarde ou mais cedo, com pretexto ou sem elle, Portugal será victima.
Os nossos terrenos africanos, se pouco teem produzido até hoje pelo abandono a que os condemnamos, podem ser no futuro elemento valiosissimo de riqueza e de prosperidade; e na tristissima situação em que as nossas finanças se encontram, com o enorme desequilibrio que annualmente se denuncia entre a receita e a despeza, quando os encargos da divida absorvem, já, metade dos rendimentos, importantissimo é o problema colonial, porque a solução d’elle póde evitar funestissimas perturbações, póde evitar a ruina da Nação, e mais do que isso—a perda da sua independencia!