Os sentimentos quando se manifestam com violencia exercem uma forte acção de communicabilidade a que nem todos são refractarios. Vêmos lagrimas nos olhos d’uma viuva, ouvimos o casquinar de sonoras gargalhadas e o cerebro, recebendo as impressões d’essas lagrimas e d’esses risos, reproduz em nossa face os sentimentos que os motivaram: rimos quando os outros riem e choramos quando os outros choram[61].

Assim, na scena das carpideiras, ellas, a familia, as visitas, os creados, disputavam primazia em intensidade de sentimentos.

Terminada a cerimonia, os amigos compunham no rosto os traços d’uma grande dôr; distribuiam pela familia arrochados abraços e violentos apertos de mão, exprimindo entre soluços os desejos de se tornarem uteis: se fôr preciso qualquer coisa—estamos ás ordens—mandar com franqueza—adeus—é ordem do mundo—resignação—adeus...

Fechada a porta, fechavam-se tambem, com ella, as valvulas das glandulas lacrimaes; e carpideiras e doridos corriam á vasta cozinha, onde pantagruelicamente atafulhavam o bandulho com grossas postas de bacalhau cozido, abundantemente regadas por successivos cangirões de bom e espumante verdasco.

Batiam, de novo, á porta; tudo voltava á sala.

O morto lá estava; amarello, hirto, de mãos ceraceas cruzadas sobre o peito, muito esticado dentro da sua roupa preta perolada de agua benta, exhalando fragrancias de vinagre aromatico, de nariz para o ar, onde as moscas esgaravatavam com as patitas, na doida e frenetica sensualidade das cocegas que ellas tanto appetecem, e que o finado, dias antes, tão pertinazmente lhes recusára.

Então, a sensibilidade das carpideiras explodia pelo canal digestivo em sonoros arrotos.

E n’essa sessão solemne que constituiu a segunda parte do programma—uma verdadeira visita de pezames pela frieza da sala, pelo tremulo discursar dos primeiros oradores, pela hesitação dos mestres de cerimonia e pela presença da bandeira nacional que significava os restos mortaes dos nossos brios e das nossas glorias, tambem se ouviu—permitti que o diga, honrados artistas—um rasoavel arroto:—aquella polka final.