Ora, o que é o cerebro?
É a parte pensante do organismo.
N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?
Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto menos culta.
E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra povoação do paiz, com egual numero de habitantes—nas cathedras do Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de filhos, e tão, que não mais, distinctos.
Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações, transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.
O titulo de burgo podre, com que realmente este concelho é mencionado em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do grilheta e do forçado.
Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa encha a pança e o pé de meia.
Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os pataqueiros destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os toiros no curro de S. Bento.
Esta é a nossa triste condição.