Ha leis a obedecer. E com vontade, ou com magua,

Das batatas e do bacalhau que gastaes da Cooperativa,

Haveis de pagar, inteira, completa e positiva

A decima que todos pagam: os direitos do Real d’Agua![8]

Aurelio tem, tambem, incontestavel merecimento no theatro; mas nas doiradas espheras em que, entre nós, a Arte alli se expande e libra, nunca a minha nervosidade e a dynamica do meu espirito foram, tão extraordinariamente abaladas, como n’essa saudosa noite, em que aos meus olhos e sentidos, se patenteou a intuição artistica mais nitida, a percepção psychologica mais frisante, que tenho logrado admirar nos palcos dos grandes centros civilizados.

Alludo á magistral execução e genial relevo que, na Morgadinha de Val d’Amores, deram aos seus papeis, os meus amigos Machado e Romano.

V. Ex.ª deve recordar-se...

Representava-se o auto entre moiros e christãos. Figuravam reis, prophetas, anjos, princezes, pagens, donzellas, pastores e pastorinhas.

Das bandas do Oriente surgem: Manassés—o propheta, e Adonis—o princez.

As meias da sopeira, solidamente atadas, com tres voltas de fio de vela e nó cego, acima da articulação do femur com a tibia, desenhavam-lhes as linhas bamboleantes do pernil, escassamente roliço para despertar sensações eroticas; o pé, pequenino e adamado, encafuava se, gentilmente, n’um cambado sapato de entrada abaixo, com fivela doirada; o calção retesado limitava-lhes a curvatura das nadegas; dos hombros pendia-lhes graciosa quinzeninha de velludo defuncteiro; na cabeça, um carapucinho patusco, com o seu tope arrebitado.