Quando encontro Sua Excellencia nas ruas da vizinha cidade de Tuy, pisando com arrogancia e altivez, genuinamente portuguezas, o solo d’aquelles odiosos Filippes, seguido automaticamente, á distancia regulamentar, por alentado e escolhido artilheiro, como estabelece o regulamento de Sua Excellencia, o Senhor Conde de Lippe, eu tremo de respeito e envergonho-me de mim mesmo—pobre e mesquinho verme da terra.
Quando assisto á entrada de Sua Excellencia, solemne, magestoso, omnipotente, rutilante de oiro e pedrarias, constellado de crachás, faiscante de venéras,—no templo de Santa Maria, em festividade da Semana Santa, para mandar prevenir as auctoridades civis e ecclesiasticas, que superintendem no cerimonial, que está alli, para, como unico e fiel representante de Sua Magestade El-rei, n’estes burgos,[16] depôr o osculo de respeito nos chagados pés do Senhor dos Passos, exactamente como, á mesma hora, faz o mesmo Augusto Senhor Rei, no templo da Graça—quando o vejo aproximar vagarosamente da veneranda imagem, n’aquelle passo grave, solemne e arrastado de solas, com que os prophetas de barba de guita e cara borrada com pós de sapato, acompanham em Tuy o sagrado esquife, e o ouço depôr o respeitoso osculo, confundindo assim, em edificante e enternecedora homenagem, a magestade dos céos com a magestade da terra—quando sigo, depois, Sua Excellencia na retirada do templo, rodeado do seu luzido e brilhante Estado-Maior, essa pleiade de homens illustres, que representam o que ha de mais intelligente, nobre e indispensavel nas instituições militares do meu paiz, homens encanecidos em mil batalhas contra columnas cerradas de algarismos, cifras e cifrões de indomitas contas de feijão e batata, do rancho geral, ou dos cadernos da arrecadação dos puxa-frictores, morteiros, colubrinas, missagras, lanternetas, chapuzes, cepos, boldriés, sacres, caçoletas, falconetes, lanadas, cucharras, soquetes, munhões, sotroços, trinque-bales, tira e mette-buchas e outros tarecos velhos, que nas dependencias da Praça são do exclusivo dominio e usofructo dos ratos e aranhões, formando, no seu conjuncto, collecção superior, em inutilidade, á feira da Ladra—quando eu vejo tudo isso, meu Senhor, sinto-me mais pequeno do que um feijão fradinho; mais sumido, do que um certo parasita que Vossa Excellencia, d’essas alturas em que vive, não enxerga, mas com o qual, eu, infelizmente, estou relacionado, desde que commetti a imprudencia de (com licença de Vossa Excellencia) verter aguas, detraz das portas do Meio, onde tambem o faz a soldadesca!
Vossa Excellencia deslumbra-me; offusca-me; tem para mim as proporções d’um semi-Deus; mas quer Vossa Excellencia saber, respeitabilissimo Senhor?
Ha, por ahi, gente tão nescia, tão ignorante, tão alheia ao mechanismo d’esta complicada engrenagem das instituições sociaes, que chega a perguntar (perdõe-lhe Vossa Excellencia) para que serve o Governo da Praça, alliando, ainda, á ignorancia, a grosseria de lastimar que, do que a gente paga nas decimas, do que se rouba ao trabalho honrado e aspero do lavrador e do padeiro, se desviem 500 e tantos mil reis mensaes, obra de sete contos por anno, para ter ahi (que malcreados!) n’um rasoavel sybaritismo, cinco ou seis servidores da patria, equiparados escandalosamente (dizem elles) em honras e proventos, ao official, que nos corpos atura, diariamente, o brutal trabalho do quartel, com enorme responsabilidade, com necessidade de instrucção e arriscado a, d’um momento para outro, receber ordem para expôr a caixa craneana á bala do trabuco assassino, que anda a monte, ou ao zagalote do bacamarte desordeiro e avinhado, nas grandes borgas eleitoraes.
Eu, até, já ouvi dizer, Excellentissimo Senhor, que se isso era por causa das procissões, das missas pela alma do Senhor D. Pedro IV, ou da recepção das musicas gallegas, o Governo podia muito bem contractar, para tal effeito, os gigantones de Tuy, ou os barbacenas da Guarda romana, porque eram de mais apparato, era outra limpeza e ficava muito mais barato.
Mas quer Vossa Excellencia saber ainda mais? Ha, até, n’esta terra de cafres, quem reponte com a posição original que Vossa Excellencia dá á sua boquilha, quando, nas ruas, se delicia com os aromas d’um bom charuto! Como se Vossa Excellencia, pelo simples facto de não ter Tosão, d’Oiro, que dá honras de principe e direitos a poder fazer a gente o que quizer, não tenha a plenissima faculdade de trazer uma coisa (a boquilha), como muito bem lhe appetecer, horisontal, ou ao dependuro, e como se esta ultima posição não fosse, realmente, a mais decente e apropriada á edade de Vossa Excellencia!
Ora diga-me Vossa Excellencia, agora que desceu commigo a estes profundos abysmos da ignorancia popular, se é, ou não, necessario applicar, de vez em quando, a estes barbaros, umas espadeiradas á Macedo, ou quatro mimos com o historico chicote do Bruto, digo, do Barão do Rio Zezere...
Excellentissimo Senhor!
Eu folgo de ter encontrado pretexto, para manifestar o meu respeito e veneração a Vossa Excellencia, mas, como esta já vae longa, abrevio o muito que lhe tinha a dizer e contar.
Não se incommode Vossa Excellencia com as más linguas. Nosso Senhor Jesus Christo perdoou aos que não sabiam o que faziam. As realezas da terra, meu Senhor, são representantes legitimos da realeza dos céos. Affonso Henriques, quando em Ourique dava tapona na moirama, a folhas tantas, olhou para o céo e de lá fizeram-lhe um signal com a cruz, que queria dizer: vences. Constantino, quando se viu atrapalhado com os barbaros, olhou tambem para lá e o Padre Eterno fez-lhe o que a gente faz, quando está sentado na praia com o namoro, deante do futuro sogro e da rabujenta futura sogra e, não podendo dizer á rapariga: amo-te, oh filha! escreve sorrateiramente essas palavras na areia, com a ponta da bengala. Pois o Padre Eterno foi-se ás areias do céo e, com a vergastinha com que tosa a canalhada miuda dos anjos e seraphins, escreveu tambem disfarçadamente: