Commove-se-me profundamente a alma; inundam-se-me os olhos de lagrimas; sensibilizo-me, como se te ouvisse no palco com as lamentações de pae tyranno e infeliz; foge-me dos labios o riso, como se te aturasse o espirito n’essas libertinas extravagancias a que te dás no Carnaval, encadernado de princez, ou á antiga, com os ouropeis e a farrapada do teu guarda-roupa—(boceta pandorica de frioleiras e de traça)—percorrendo as casas sérias, com grande gaudio das matronas do teu tempo e abundante colheita de mystificações, intrigas, pançadas de riso, chavenas de chá e tostas com manteiga—quando me recordo, oh Balagotio illustre, dos teus serviços no cordão sanitario!

Noites tempestuosas que passaste; asperezas do inverno; longas caminhadas; chuva, vento, frio, fome e sêde; graves perturbações nas funcções digestivas; fraqueza nas contracções peristalticas, occasionando incommodas e demoradas accumulações no cœcum; nas longas noites de vigia, ao avizinhar-se vulto sombrio e suspeito, afrouxamentos instantaneos do sphingter com defecações abundantes, enfraquecedoras; fartas exhalações de acido carbonico e hydrogenios carbonado e sulfurado—e tudo isto pelo amor da humanidade, provocado pelo mais desinteressado altruismo, inspirado na mais acrisolada philanthropia e, depois ainda, aggravado com os arrancos da tua dyspepsia chronica e com a ingratidão da Patria de quem, contrariado, espezinhado na pureza dos teus sentimentos humanitarios, tiveste de receber, a fortiori, umas mesquinhas dezenas de libras!

Tu, Balagotio amigo, engrossaste o longo martyrologio, da Patria. Salvaste-a e continuas ahi esquecido, ignorado, com a tua dyspepsia e o teu barretinho de seda preto, condemnado a um eterno roçar de canhões do casibeque na mesa da Administração, sem uma commenda, sem veneras hespanholas, que se vendem ao alqueire, sem um viscondado sequer!

Mas eu, conterraneo illustre, não serei tambem ingrato. Já que esse Zé Barros pequenino foi insensivel aos vehementes protestos do teu amor, e te não fez Commissario das Policias, com pingue gratificação de categoria; já que o teu Chefe no Cordão se não compadece dos olhinhos de ternura e piedade, com que tu, cem vezes por dia, lhe fitas a janella, eu te protegerei, cidadão benemerito e prestantissimo.

Tu soffres. Essa dyspepsia cruel, quando se não fala em Microbio, mina-te a existencia, curva-te o tronco, descora-te a face, dissemina no teu organismo os germens de uma anemia lenta e perigosa.

Brown Sequard nada te póde fazer.

A Deus nada posso pedir a teu favor, porque tu tambem foste connivente, com esse feroz Attila do Registro predial, na prisão da Santa.

Nada temos a esperar do Céo, mas recorremos ao Olympo, que outr’ora fazia tão bons milagres, como o Senhor S. Campio, que sua uma vez por anno, ou a Senhora da Cabeça, que, para mostrar competencia na cura de fracturas da dita, reune traiçoeiramente na sua festa, quantos caceteiros comem boroa e feijão, por estas boas vinte leguas em redondo.

Pois bem! Que Jupiter ouça os meus rogos. Já que as delicadissimas funcções do teu organismo te consentem apenas o leite, como alimento, que Elle te mande Io, para que tu, nas suas cem tetas, possas de noite e de dia chupar a vida, novas forças, novos elementos e os teus tecidos tomem, a breve trecho, a salutar obesidade do sr. João Ignacio, do saudoso doutor Pacheco, ou do nosso prestantissimo deputado, o sr. Visconde da Torre!