—Maravilhosa é a historia para exemplo (disse o doutor) e tambem poderá servir d’elle no como se devem contar outras semelhantes, com boa discrição das pessoas, relação dos acontecimentos, razão dos tempos e logares e uma pratica por parte de alguma das figuras, que mova mais a compaixão e piedade; que isto faz dobrar depois a alegria do bom successo.—Sómente (acudiu Leonardo) me pareceu comprida, sendo a materia d’ella muito breve.—Essa differença (lhe tornou Feliciano) me parece que se deve fazer dos contos ás historias; que ellas pedem mais palavras que elles, e dão maior logar ao ornamento e concerto das razões levando-as de maneira, que vão affeiçoando o desejo dos ouvintes: e os contos não querem tanto de rhetorica; porque o principal, em que consistem, é a graça do que fala, e na que tem de seu a cousa que se conta.—Não sou contra esse parecer (disse o doutor); mas antes de averiguarmos a demasia, deixemos logar a que Pindaro comece a sua historia, e não lhe lancemos deante preceitos que lhe façam receio.—Necessaria me era (disse elle) grande confiança para vencer os que tenho, sem me crescerem outros de novo: porque, se antes de ouvir a Feliciano tomára esta empreza, tivera um atrevimento menos culpavel; mas agora será despejo a minha ousadia.—Eu sou (disse elle) o que me corro da desculpa; e posto que me vinha bem que estes senhores acceitassem qualquer das vossas para não ficar tão manifesta a vantagem que me fazeis, não quero que com essa fingida humildade castigueis a confiança, com que me offereci.—Melhor me está obedecer que competir (tornou Pindaro); quero contar uma historia semelhante á vossa, só para me aproveitar do modo que n’ella tivestes: se eu acertar, a vós se deve o louvor de tudo; e se me perder, tambem sereis culpado, por a força que agora me fazeis.
“Manfredo, mancebo bem nascido, a quem em gentileza e discrição ficavam muito inferiores todos os de sua edade, na casa do imperador Constantino III, cujo cortezão era, teve tanta ventura nos olhos de Eurice, filha de Constancio, que depois succedeu no imperio, que lhe parecia a ella que não podia esperar dos fados maior ventura, que a de o alcançar por seu esposo, e gosar em qualquer estado humilde o fructo de sua affeição; triumpho que o amor alcança da vaidade com o favor dos espiritos mais illustres e levantados. O mancebo alheio d’estes pensamentos, porém obrigado das mostras que lhe revelavam aquella affeição, determinou de lhe não ser ingrato; porque além da grandeza de estado, que na opinião dos homens avalia melhor os merecimentos naturaes da cousa amada, era Eurice tão formosa, que de quem no sangue lhe fosse egual merecia os maiores extremos de affeição. Não fazia comtudo Manfredo os que desejava, porque como entendido sabia o risco, em que punha a vida, se se publicasse na côrte este segredo: e posto que não via caminho de poder tirar algum fructo de seu amor, o sustentava sem esperanças com toda a fé, que a Eurice era devida. Passou algum tempo até que em ambos a grande força do amor venceu a razão, e triumphou a vontade do entendimento de Manfredo, que sem outro conselho fugiu com a sua Eurice, em companhia de dois creados que o serviam, de cuja fidelidade tinha feito prova da experiencia. Passaram a Italia: tomaram primeiro terra no reino de Napoles, d’onde foram a Ravena, e d’alli ao districto de Modena, onde agora chamam Mirandola, que eram n’aquelle tempo montanhas incultas, habitadas sómente de alguns pastores: entre estes começaram a viver os dois amantes guardando gado, e fazendo verdadeiros os bem fingidos amores pastoris: tendo, em logar dos paços reaes, tanques e jardins de Constantino, as humildes cabanas, a natural verdura dos floridos valles, e a cristallina corrente das claras fontes: e a troco das galas, sedas e toucados galantes, que deixaram, os simplices vestidos da montanha, as capellas de flôres e boninas, e os surrões e cajados de guardadores: alli pisando com um generoso desprezo a vaidade, livres de ingratos ciumes e enganosas suspeitas, gosavam de seu puro querer, e verdadeiro, sem haver outra cousa que perturbasse aquelle contentamento, mais que o receio de serem por algum modo conhecidos. Manfredo, pouco a pouco desbaratando por via d’aquelles dois creados algumas joias de preço, foi comprando gados e propriedades n’aquellas montanhas em tanta copia que veiu a ser o mais rico morador que n’ellas havia: e por sua riqueza, prudencia e pessoa era tão respeitado e querido de todos, que, como se fôra senhor d’elles lhe obedeciam. Já n’este tempo de sua prosperidade tinha da formosa Eurice copiosa geração; porque do primeiro parto lhe nasceram tres filhos bellissimos, que com os trajos e nomes d’aquella montanha se crearam. Depois lhe foram nascendo cinco, que com a melhoria de seu estado accrescentou nos nomes, chamando a um d’elles do seu proprio; e a duas filhas a uma Eurice e outra Constancia. Com esta generosa familia, e sem outros cuidados, n’aquella doce e amada companhia passavam alegremente a vida sem sobresaltos. Tendo depois Constancio o governo do imperio, passou com grande exercito á Italia, e assentou arraial junto á cidade de Aquileia, aonde todos os povos italianos lhe mandaram por seus embaixadores dar a obediencia. Juntaram-se os moradores de Modena e de seus contornos, e elegeram para esse cargo a Manfredo considerando sua gentileza, cortezania e entendimento, e o poder ir com melhor tratamento de sua pessoa e creados. Houve elle de acceitar o cargo, seguro de ser já conhecido de nenhum dos que em outro tempo haviam tratado, com a mudança dos annos, e da vida que tinha n’aquella aspereza. Mas Eurice com amor e esperança duvidosa, com mil receios deante, lhe dizia: “Não sei, meu querido esposo, que desejo me anima a que consinta n’essa vossa jornada, temendo n’ella tantos perigos assim de serdes conhecido de meu pae, a quem tanto offendestes, como de me deixardes só n’esta montanha, onde vossa presença me sustenta a vida, tendo-me tão mal acostumada, que nem saberei viver uma hora sem vós, nem estar em mim, em quanto vos detiverdes em Aquileia: comtudo um certo presagio da ventura me aconselha que não tema este damno: e considero que não fôra muito menor, se me levareis em vossa companhia, para que quando a sorte quizesse que, sendo do imperador descoberto o nosso segredo, vos accommettesse a sua ira, ou o movessem minhas lagrimas á piedade, ou, havendo de haver algum risco com vossa vida, a padecesse a minha de um mesmo golpe. Aconselhae-me, caro Manfredo, o que farei, tomando as minhas partes contra vossa propria determinação; que me não deixa amor fazer a escolha; nem os receios em que tropeço me dão caminho e logar para que acerte. Porque se a ventura me busca para me restituir o que deixei em seu poder, quando no querer do amor puz minhas esperanças, não quero faltar-lhe pelo que vos quero: e se pelo contrario quer tomar vingança do despreso com que tratei suas prosperidades, justo é que se desvie dos castigos quem se soube esconder de seus favores.“—Estas e outras palavras piedosas lhe dizia Eurice; a que elle com outras de muita segurança respondia, e a animava a que não podia temer nenhum successo desencaminhado; desfazendo-lhe com boas razões o seu feminino receio: com estas e outras de muito amor e saudade se despediram. Ella ficou chorando sua ausencia: elle chegou a Basyléa; e houve-se com tanto aviso e cortezania na embaixada, que o imperador lhe ficou affeiçoado, e o fez gentil homem de sua casa, mandando-lhe que ficasse n’ella em seu serviço com promessas e palavras mui compridas. Houve Manfredo de acceitar o novo cargo, por não mover alguma suspeita que sahisse em seu damno. Escreveu logo a Eurice o que passava; e ella começou com novo sentimento e devidos extremos a chorar sua ausencia e sua privança; mal, que só sabe receiar quem conhece a mudança e perigo de vontades; que sempre as mais levantadas são mais mudaveis e ligeiras, e os da inveja que sempre como sombra acompanha os validos. O imperador cada dia cobrava a Manfredo maior affeição, achando no seu entendimento e humildade tudo o que em todos buscava; elle admittido nos conselhos e nas occasiões de maior importancia ia crescendo; mas como estes bens lhe impediam o maior da vida, que era a sua Eurice, não recebia d’elles contentamento, nem os tinha por ventura. A mulher da mesma maneira vivia em pena naquella montanha, que d’antes lhe parecia um paraiso terrestre; e como sentia egualmente os cuidados de Manfredo e a sua ausencia, para o alliviar dos da côrte, lhe mandou Fantulo e Manfredo seus filhos menores a visital-o, porque a estes mostrava elle maior affeição; e eram elles taes por seu parecer, que a todos os que os vissem a mereciam. O pae ainda que com amorosos extremos os festejou; combatido de um novo receio, estava turbado, porque era o do seu nome tão parecido a Constancio, que temia que na vista désse occasião de alguma lembrança que descobrisse o segredo de sua culpa. E como a vinda dos meninos foi sabida de muitos, e o imperador os havia de vêr pela graça que já tinha a seu pae, elle mesmo se quiz oppôr ao perigo, e lh’os foi apresentar com toda a humildade. O avô os recebeu com estranha alegria; que ás vezes a natureza com estes effeitos descobre os segredos do tempo, e acaba o que não póde levar ao fim a industria humana. O pae como discreto sabia escolher as occasiões; que este é o mais verdadeiro toque do entendimento. Entrando com o imperador e com os filhos em um aposento particular, lançado a seus pés lhe disse estas palavras: “Não é justo, poderoso senhor, que á conta de salvar a vida, e de escusar n’ella o castigo que meus erros merecem, tire a esses innocentes o merecimento e o favor de vossa graça, com que agora podem tornar atraz a fortuna: e assim com a confiança em vossa piedade e menos seguro ao perdão, que obrigado do muito que vos devo, confesso minha culpa, pedindo com estes meninos misericordia, que para si e para sua mãe e irmãos estão com caricias pueris grangeando a vossa vontade. Sabei, piedoso senhor, que são netos vossos, filhos de Eurice, vossa filha e meus; que, sendo desposado com ella secretamente, por fugir ao rigor da vossa ira, vivo ha tantos annos nas asperas penedias e incultas montanhas de Modena, fazendo penitencia de minha ousadia com o mesmo amor, que foi o culpado. Se esta confissão, com o pesar de vos haver offendido, merece que useis commigo de brandura, lançado a vossos pés peço perdão, tomando por padrinhos a estes caros penhores do sangue vosso: e se pelo contrario se ha de empregar o vosso rigor em sujeito tão vencido, aqui me tendes com a vontade offerecida para os maiores tormentos da crueldade.” O imperador com um estranho sobresalto ficou enleiado sem saber determinar: e pondo os olhos n’aquelles bellos retratos da sua Eurice, abrandou a ira, com que os havia de pôr em Manfredo, reconhecendo-os por seus netos, e perdoando ao pae a culpa commettida. Depois foi elle proprio ás montanhas a vêr a Eurice, e á venturosa progenie que creára; a quem com muitas lagrimas de alegria recebeu em sua graça: e alli fez a Manfredo conde e marquez de todo aquelle districto, que fica entre os rios Pado, Tanaro e Sequia, dando-lhe poder para edificar villas, castellos e cidades, que accrescentasse a seu senhorio: mandou que elle, seus netos, e todos da sua descendencia, trouxessem por armas a aguia negra dos imperadores. E por admiravel progenie da sua Eurice pôz á terra Miranda, que depois chamaram vulgarmente Mirandola. Manfredo e sua mulher em vida de Constancio seguiram a côrte com grande accrescentamento de estados: e depois que falcou no imperio, se recolheram ao seu marquezado, fazendo muitas povoações e cidades, em que seus filhos succederam, alliando-se depois com todos os potentados de Italia e de Allemanha, que dão ainda verdadeiro testemunho de que os casamentos por amor nem podem ser extranhados da natureza, nem desfavorecidos, por a maior parte, da ventura.
—Ambos (disse Solino), me parece que podereis partir a fogaça, porque vos houvestes de maneira, que o que se atrever a julgar a melhoria, tomará tão difficultosa empreza, como seria a de querer agora competir com a boa linguagem e modo que tivestes.—Entendo (tornou Leonardo) que chegais braza á vossa sardinha: mas não a haveis de tirar do fogo com a mão do gato, nem livrar a vossa obrigação, com a que nós tenhamos de dar a Feliciano e Pindaro louvores tão bem merecidos. Nenhuma razão tendes para não fazer no terreiro vossa cortezia.—Eu sou de voto (disse o doutor), que lhe aceitemos qualquer escusa, porque a sua rhetorica serve mais aos contos, que ás historias, segundo disse o Licenciado.—Grande aggravo se lhe faz (disse Pindaro) em o tirarem da conta dos historiadores, que elle se confessou por esse, e por affeiçoado aos livros de cavallarias; e além dos seus contos engraçados sabe tantas historias, que a ser figura de arithmetica, poderá ser conto de contos.—Bem sei (respondeu Solino) que me sommais para me diminuir: ainda que a meu pesar confesso que, se a historia de cada um de vós me cahira nas mãos, houvera de sahir d’ellas com mais bordões, e muletas do que tem uma casa de romaria, porque me não escapam termos das velhas, nem remendos dos descuidados que lhe não misture.—Quando menos (disse o doutor) ouçamos isso, ficará á vossa conta o exemplo do que se ha de fugir, pois os dois amigos nos ensinarão a acertar.—Tambem errar por obrigação é difficultoso, (replicou elle) mas aceito o partido, por vender por alheios meus erros proprios. E ouvi o que passa: farei de um peão dama, e de um conto historia por ser mais breve:
“Dizem que era um rei: vem este rei casou por amores com a filha de um seu vassallo: era ella tão formosa que podia por sua belleza ser confiada, pois por essa alcançára o ser rainha: mas sem lhe valerem esses privilegios deu em tão ciosa, que bem a mão não dava o marido um passo que ella não acompanhasse com as suspeitas; assim que apertavam estas tanto com ella, que já mais vivia em paz com seu gosto. Vem ella, e por vencer esta desconfiança vai, e manda secretamente chamar uma feiticeira, que n’aquella terra havia de muita fama, em cujo engano achavam os namorados uma botica de remedios para seus males. Assim que dizia: esta feiticeira por lhe vender mais cara sua diligencia, feitas algumas fingidas, metteu em cabeça á boa da rainha que o marido amava com grande extremo a uma criada sua, que ella pintou logo a mais galante, airosa e bem assombrada que havia no paço. Quando ella aquillo ouviu ficou guarde-nos Deus! como uma mulher transportada, e sem sangue; por maneira, que prometteu áquella feiticeira que lhe faria e aconteceria, se desaffeiçoasse ao rei d’aquelles amores, e empregasse n’ella todos os seus: a outra, que não queria mais que aquillo, vede vós como ficaria contente; vem, e promette á rainha que lhe daria tres aguas conficionadas de tal maneira, que uma, tanto que el-rei a provasse, bebesse logo os ventos por ella, e lhe quizesse mais que o lume dos olhos, com que a via; a outra, que, em a rainha a bebendo, parecesse a seu marido o maior extremo de formosura que havia no mundo; a terceira que, tanto que a dama a bebesse, a desfigurasse de maneira, que a todos aborrecesse a sua vista. As palavras não eram ditas, a rainha lhe deu muitos haveres, e fez grandes mercês e promessas; que muito facil é de enganar a que deseja aquillo, com que lhe mentem. Vai a feiticeira d’alli a poucos dias, e traz aquellas aguas conficionadas, encarecendo muito a virtude, e segredo d’ellas: mas ou porque lhes errou a tempera, ou porque todas se resolvem n’estas boas obras, a mudança que ella queria que houvesse na vontade, e nos pareceres, lhe houveram de fazer na vida; que a peçonha, que é sempre material dos seus unguentos, penetrou de maneira que os teve a todos tres em passamento; e a bom livrar ficaram d’ahi a poucos dias sem juizo. Ainda bem a feiticeira não soube o damno que fizera, e que, por não trazer a mão certa n’aquelles adubos, podia vir a estado de a pôrem nas da justiça, desappareceu. Eis senão quando se juntaram todos os medicos eminentes, que havia no Reino; e depois de muitos mezes de cura, (olhai vós quantas se fariam a taes pessoas) foram pouco e pouco cobrando os sentidos e entendimentos; e com a força do mal lhes cahiu a todos o cabello da cabeça sem lhes ficar um só. E não foi tão ruim o partido, como era ter cabeça sem elle quem antes o trazia sem ella. Tornando ao meu proposito, tanto que a rainha se viu tão desfigurada, conhecendo o desatino que fizera, dando todas as culpas a amor, confessou seu erro, a criada sua innocencia, e o rei sua desgraça: d’alli adiante, conformando-se com o exemplo daquelle successo fizeram vida sem ciumes: que d’elles e de casamentos por amores não escapam senão ou com as mãos nos cabellos, ou com elles pellados.”
Festejáram os amigos a historia de Solino, porque se conformava no modo e acção de falar com o que dizia; e como tinha graça, até os erros lhes pareciam bem. E assim lhe disse o doutor:—Tudo vos succede a pedir por boca, porque na vossa até o exemplo do que nos outros enfada tem graça para dar contentamento; e posto que as duas historias passadas foram tão primas, não desdizem d’ellas os vossos bordões.—Se eu não tivera o de vossa auctoridade para me sustentar (respondeu elle) manquejára em tudo.—Em nada (proseguiu elle) haveis de mister favor alheio, e menos n’este particular, em que entrais com todo o cabedal que requer uma historia, que é boa linguagem, discrição natural, relação ordenada, praticas com piedade, successos com brevidade, sentenças com que se auctorise, e graça com que se conte. Porém são horas de deixarmos esta, e darmos as suas ao repouso da noite.
Com isto se levantaram continuando com a mesma pratica até á escada; que das coisas, que dão satisfação á vontade, não se sabem despedir as razões.
DIALOGO XI
DOS CONTOS, E DITOS GRACIOSOS E AGUDOS NA CONVERSAÇÃO
No dia seguinte, antes das horas em que os amigos se haviam de ajuntar para a conversação, Leonardo e os mais tiveram recados de D. Julio, em que lhes fazia a saber que chegara doente, e que tinha por hospede ao prior com outro irmão seu: que receberia de todos grande mercê em quererem juntar-se aquella noite em sua casa, porque só com este remedio daria allivio ao mal que trouxera da cidade. Elles, que (além de a petição ser justa) eram interessados em sua saúde, amigos e obrigados a o visitarem, ouviram que lhe deviam obedecer. Solino acompanhou a Leonardo: e não faltaram no caminho murmurações discretas, nem em o doutor, e os estudantes juizos temerarios. Acharam a D. Julio na cama, o prior junto a ella, e o irmão, que era homem mancebo, bem afigurado, e que no trajo vestia mais ao soldado, que ao cortezão. Sentados todos depois de lhe fazerem cortezia, e comprimentos devidos, disse Leonardo:—Bem me parece, senhor D. Julio, que estaes já tão aldeão com a nossa companhia, que vos apalpam os ares da cidade; e que os regalos d’ella fizeram que o senhor prior se esquecesse d’aquella sua estalagem tão cheia de vontade para o servir.—Onde vós estaes (respondeu D. Julio) é a côrte; e a falta d’esta me podia fazer aldeão. Do senhor prior fazer a troca por esta noite, tive eu a culpa; porque com esta condição acceitei em terra alheia a sua pousada nas casas do sr. Alberto seu irmão, a quem tambem obriguei a que me fizesse esta mercê.—Não me desculpo (accudiu o prior) porque tudo o sr. D. Julio tomou á sua conta: porém em occasião estaes de haver muitas, em que mudeis o queixume, fazendo-o antes de minha importunação sobeja, que d’essa falta: porque vem apostado meu irmão, pelo que lhe contei, a perder poucas noites d’esta aldeia, em quanto as tiverdes tão boas como duas que me aconteceram.—Assim (disse o doutor) serão ellas melhores, porque com vossa presença, autoridade e discrição, e com favores seus, ficarão melhor assombradas; terá saúde este fidalgo, e então vos convidaremos para a primeira; que ainda não sabemos de que vem maltratado.—Do meu achaque (disse elle) tive eu a culpa, que me entreguei hontem mais, do que era razão, na ceia; porque foi de pescado e marisco, e doces; e como cresceu com a novidade o appetite, quiz-se forrar á custa do estomago de quantas vezes nos faltam semelhantes regalos n’este logar; e certo que tive um accidente muito rijo, e não podia com o cansaço, que me deixou sem vossa vista, e d’estes senhores; e por isso me vali do atrevimento do recado.—O allivio (disse o doutor) é tanto em favor nosso, que, a ser menor o mal, consentiramos n’elle.—Maiormente (accudiu Solino) se é o que eu cuido, que como experimentado de ordinario, julgo mais a enfermidade pelo pulso, que pela informação.—Não parece que vol-o deve offerecer quem a tem tão boa de vossa malicia, (tornou o fidalgo).—Antes estou tão emendado em alguma, que vol-o pareceu (replicou Solino) que já não suspeito senão o que é.—Tarde vos mettestes n’essa recoleta (disse o doutor) e os que em velhos começam a ser bons, pouco tempo lhes fica para usarem da virtude.—Não sei logo (lhe respondeu elle) como, sabendo isso, vos descuidastes tanto, que nunca para uma murmuração vos achei descalço.—Parece-me (disse D. Julio) que será bom que o mais fraco aparte esta briga com pedir que me façaes mercê de me dizer em que se passou hontem entre vós a noite.—Parte (disse Solino) em cuidar em como passarieis o dia, e na grande falta que nos fizestes; a outra em dizer como se haviam de contar as historias na conversação; e n’aquella se disseram duas para negaças, e uma para espantalho; ficou para continuar a materia de contos graciosos, ditos agudos e galantes: tereis vós saude logo, e nós com ella gosto para proseguir, e ouvirão estes senhores o que não cuidaram.—Não me ponhaes vós isso em dilação (disse o fidalgo) que antes em quanto mal disposto quero, como dizem, accrescentar esta noite á vida; e se m’a desejaes como amigo, sabei que n’isto a tenho.—Se como a doente (respondeu Solino) vos houverem de fazer a vontade, não sei se fôra esta. Com tudo, ao menos para divertir, comece o doutor; que eu aqui trago as armas, com que costumo accudir a esta guerra; e cada um diga o seu conto, e conte o seu dito, encommendando a todos que riam do que eu disser, porque é vicio, dos que cuidam que tem graça, a desconfiança.—Tambem essa me parece, (accudiu o doutor) e dando-vos a obediencia por servir ao senhor D. Julio: A noite, em que nos faltou sua presença, se tocou n’esta conversação o modo que havia de ter o discreto em contar uma historia; fugindo muitos vicios, e bordões que os nescios tem n’ellas introduzidos; e como em dependencia d’esta materia se falou nos contos galantes, que tem d’ellas muito grande differença; pois elles não consistem em mais, que em dizer com breves e boas palavras uma cousa succedida graciosamente. São estes contos de tres maneiras: uns fundados em descuidos, e desattentos: outros em mera ignorancia: outros em engano e subtileza. Os primeiros e segundos tem mais graça, e provocam mais a riso, e constam de menos razões, porque sómente se conta o caso, dizendo o cortezão com graça propria os erros alheios. Os terceiros soffrem mais palavras, porque deve o que conta referir como se houve o discreto com o outro que o era menos, ou que na occasião ficou mais enganado. E porque n’isto declaram menos as regras, que os exemplos, diga cada um o seu; que eu, por desimpedir o caminho, quero que passe por conto o que me aconteceu ha poucos dias:
“Fui a casa de um letrado meu amigo, a quem achei mui colerico, tirando pelas orelhas ao seu moço, que se desculpava, chorando, que não sabia de uns oculos, por que perguntava: olhei, e vi que tinha uns no nariz presos; perguntei-lhe se eram aquelles: o letrado ficou corrido, porque, tendo-os nos olhos, os não via; e o moço queixoso, porque as suas orelhas pagavam a pena que as do letrado mereciam.”
—Esse desattento (disse Leonardo) é muito ordinario nos escrivães que buscarão duas horas na mesa, e nos papeis a penna que trazem na orelha. Mas para desattento, e descuido: o que n’este logar aconteceu ha muitos annos a um cortezão que aqui vivia, que tendo uns amores humildes, que tratava com muito segredo, tinha um relogio de peito que trazia tão esperto, e bem temperado, que fazia horas quasi a todos os moradores d’este logar. Desattentou, e estando com elle ao pescoço uma noite em casa da delinquente, deu o relogio meia noite: e ás escuras manifestou a toda a visinhança a verdade, que até então escondera dos olhos, e suspeitas de todos.—Ainda (disse o prior) me parece peor o successo de um meu conhecido, que em um bairro de pouca visinhança tinha em Lisboa amores com uma moça que lhe estava já affeiçoada; falava-lhe de noite de uma janella, e ambos se temiam de outra, d’onde um visinho de parede em meio os espreitava: por se livrar d’este inconveniente, deu-lhe a moça ponto para uma noite lhe falar de mais perto, entrando pela janella, fazendo primeiro certo signal, com que ella havia de accudir. Buscou elle para isto uma noite chuvosa, e escura, poz sua escada, subiu; e errando a barreira, foi bater e fazer o signal na janella de que se vigiavam. Accudiu o visinho, e abrindo-a, viu o namorado seu erro á candeia; e com o sobresalto d’esta desgraça, cahiu com a escada e com o segredo na lama.