DIALOGO XIII
DO FRUCTO DA LIBERALIDADE E DA CORTEZIA
Tendo Feliciano e seu companheiro por cousa sem duvida que se havia de tratar a materia dos cumprimentos a noite seguinte; e que já d’aquella ficavam encetados para se haverem de proseguir; se aperceberam de exemplos, historias e razões mui escolhidas, com que lhes pareceu que deixariam a perder de vista os cortezãos velhos, em cuja mocidade é certo que se usa menos d’esta alquimia de palavras fóra da tenção mental de quem as offerece. Com este fundamento se chegaram ao outro dia com muita confiança: e juntos os amigos, disse o soldado:—Foi para mim tão saborosa a conversação da noite passada, que até a lembrança d’ella antepuz ao repouso; e sem poder entrar em o do somno me lembrou uma historia famosa que succedeu a um capitão nosso portuguez n’aquellas partes do norte, procedida de uma cortezia sua bem empregada, que lhe rendeu graça com as damas extrangeiras e naturaes, inveja nos companheiros, e nos contrarios, gloriosa fama com louvor, e honra da nação portugueza. E como algum dia der logar o nosso exercicio, a hei de contar n’esta companhia em prova do muito preço e valor, que tem a cortezia com a gente generosa e illustre.—Certo (disse o doutor) que será bem errada cousa dilatarmos esta historia para mais tarde; que, posto que a todo o tempo as vossas o gastam mui bem aos ouvintes, agora tem ella o seu, e sahe bafejando á mesma materia que temos entre as mãos, maiormente que, como seja em favor e honra do nome portuguez, não consentirá o sr. D. Julio na tardança.—Antes (respondeu elle) se não accudíreis com tanta pressa, me quizera já queixar da dilação: porque, por a materia, por a historia, e por ser o sr. Alberto o que a ha de contar, obriga por mil caminhos o meu desejo; e do d’estes senhores tenho a mesma opinião.—Não é errada (disse Feliciano) no que pertence á minha escolha.
E porque todos vieram na mesma vontade, começou o soldado:
“Um capitão portuguez, que nas guerras do Norte com singular esforço fez seu nome conhecido no mundo, e sua fama immortal na memoria d’elle; e que não representava menos na presença de sua vista, do que dava a conhecer a experiencia do valor de seu braço, com as mais partes de juizo, e galanteria, que pode desejar um cortezão; cessando por razão da entrada do inverno o exercicio da guerra, escolheu, ou lhe coube em sorte, para alojar as suas companhias, um districto das terras do inimigo, que eram aldeias sem defensão. Acertaram estas ser de uma senhora flamenga, donzella de muita qualidade; a qual vendo o damno sem reparo, que a seus vassallos se apparelhava, além de com a assistencia dos Hespanhoes perder o interesse das rendas que colhia, e de que se sustentava; não sabendo que meio tivesse contra este mal, lhe veiu á imaginação de com as armas, mais poderosas por brandura, que por rigor, conquistar a cortezia do capitão, de cuja liberalidade e nobreza estava bem informada e satisfeita: e fiando de uma donzella, e de um rustico mensageiro o segredo do que queria, lhe mandou uma carta, que vinha a comprehender as razões que se seguem:
“Se o valor e grandeza de vosso animo vence a cubiça e crueldade de inimigo, confiada estou que o não queiraes ser de uma dama illustre, cujo dote, pelos successos da guerra, poz na vossa mão a ventura: e pois o ganho de me despojardes d’elle é tão pequeno, que nem basta para agazalhardes bem os vossos soldados; perdoae antes a essas fracas aldeias com brandura, havendo que ganhaes com ella o coração de uma mulher nobre, que em quanto viver vos ficará captiva (trophéo differente do que se pode esperar de um rustico alojamento), e pois de quem sois, e da fama que vos abona e engrandece se não espera que queiraes perseguir a uma dama rendida a vosso nome, dae-me liberdade para que em o de meus vassallos, para quem a peço, vos offereça os mantimentos, que ha n’esse pobre senhorio; que então será mais vosso, quando eu o possuir com o favor e mercê, que de vós espero, etc.”
O capitão, que, além do valoroso animo que tinha, sabia conhecer o muito que em semelhantes lanços se ganhava; lendo a carta se alegrou por extremo, como quem achara occasião de se mostrar gentil-homem a tão illustre e discreta senhora: e traçando primeiro o como melhor poderia responder com effeito a seus rogos; mandando vestir o rustico que trouxe a carta, e fazendo-se-lhe o agazalho e tratamento que, por quem o mandava, lhe era devido, sem respeitar a incommodidade do que para os seus não tinha, respondeu em maneira semelhante:
“Ainda as armas me não deram maior gloria que esta ventura: porque tenho por tão grande a de vos servir, que estimára em menos dominar um grande senhorio da terra, que ficar agora por guarda e defensor das vossas, as quaes tomo tanto á minha conta, que não sómente lhe tirarei a oppressão dos soldados que lhe causavam receio, mas farei que nenhuns outros lhe possam fazer offensa. Perdei, senhora, o cuidado d’ella; e crêde que saberei estimar o vosso dote mais que a propria vida. E se á custa d’ella quizerdes conquistar bens da fortuna, que egualem o preço das graças que vos deu a natureza, elle será mais copioso, e eu não ficarei menos satisfeito. Por as mercês, que me offereceis, vos beijo as mãos; porém n’ellas as renuncio; porque mais quero parecer a estes companheiros contrario vencido, que amigo obrigado.”
Não se satisfez o capitão com responder tanto a gosto d’aquella dama; mas ordenou juntamente que, quando tivesse a carta, lhe chegassem as novas do que por a sua fazia; e para isto escreveu a um capitão, que alli perto se alojára; do qual tendo licença, se foi para elle com os seus soldados, aos quaes com regalos, vantagens, favores, e cortezias ia satisfazendo a falta do alojamento que deixaram. Soube isto a dama, cujo nome era Floriza; e vencida do primor da obra, e das palavras da carta do Luzitano, o começou a amar por informações que cada hora lhe trazia a sua fama; que estas costumam a ser mais favorecidas, que as da presença. Esta desejava ella de vêr extranhamente; porém a difficuldade de contrario lh’a fazia impossivel. Accommetteu por vezes fazer-lhe presentes, a que elle nunca deu logar; antes n’aquelles, que libertára, havia poucas pessoas que não experimentassem favores e boas obras do capitão, todo o tempo, que durou a visinhança do seu alojamento. Passado o inverno, tornaram a continuar as guerras d’aquella fronteira, muito mais intricadas e perigosas, que as que haviam precedido: e como n’ellas o capitão buscava sempre as occasiões de maior risco; porque o seu esforço o punha sobre o animo dos mais guerreiros; na defensão de um posto, que lhe quiz ganhar o inimigo, ficou elle mui mal ferido, porém o contrario desbaratado, e com muitos soldados menos. Chegou a fama do successo á agradecida senhora, que o sentiu por extremo; e desejosa de fazer algum, com que manifestasse a pena que tinha de seu damno, determinou de (com salvo conducto) passar ao campo contrario a o visitar: e havida a licença, sem levar comsigo mais que duas creadas, atravessou em um coche o arraial. Sendo d’isto avisado o capitão, preveniu os seus soldados para com bellicas alegrias receberem e festejarem a sua chegada. E mandando entrar algumas companhias de guarda, lh’a fizeram a ella com grinaldas de fogo sobre os morriões, e com bombas em os piques, que parece que ardiam até a empunhadura da manopla; e outros foguetes e invenções de polvora muito apraziveis. Sahiu ella do coche á porta da tenda do capitão, vestida de uma téla verde, semeada de borboletas de ouro, que lhe estava muito bem; porque dava graça á neve do seu rosto, que com a afronta d’aquelle atrevimento se enchera de rosas encarnadas; os olhos tão alegres, que parece que se vinham rindo das estrellas, como os cabellos o poderam fazer do sol, se elle já não estivera escondido de pura inveja. Sobre elles trazia uma rede de prata, cujos laços se rematavam com perolas á maneira de camarinhas; e da parte esquerda tres plumas altas, uma branca e duas encarnadas, presas a um camafeu: sobre os pensamentos das orelhas rosas de flôres perfiladas de ouro, e pendurado em cada uma um Cupido, que quebrava o arco sobre um diamante; no pescoço uma volta pequena com pontas de aljofares muito miudos, e uma gargantilha de uns passarinhos de ouro com os peitos de esmeraldas. As creadas vestiam de setim amarello gualde, com guarnição de prata. O Portuguez, posto que não quizera mostrar descuido no que convinha para se entender, que no ornamento militar, e cortezão da sua pessoa, e tenda não faltava, como estava ferido, e incapaz de se valer das galas; converteu tudo em pavilhão rico, armação custosa, e trophéos de armas, que faziam a tenda muito agradavel, e auctorisada. D’alli com grande acatamento e inclinação, e com os olhos cheios de alvoroço festejou a boa chegada da formosa e discreta Floriza, que com as palavras accrescentou infinitas graças á sua formosura. Durou a visita grande espaço com mil finezas, e extremos de cortezia. E posto que o capitão com as feridas estava desfigurado, representava no brio e modo de seu parecer a gentileza de sua pessoa, sem a desculpa, que uns olhos affeiçoados offerecem com a parte offendida. A dama se lhe rendeu de maneira, que o mostrava na vista, empregando na sua muitas vezes os olhos. E por não ter mais tempo, suspensos os que esperavam vêr o successo da visita, lhe deu fim com nova graça: e voltando por onde viera, achou a mesma guarnição, e ordem nos soldados, que quando entrára. Logo entre elles e nos mais do exercito se praticou a causa d’aquelle excesso e novo extremo de cortezia, havendo que a que o capitão tinha com ella usado o merecia. Porém não fez termo aqui o seu desejo; que depois de ausente, mandando por muitas vezes a visital-o na convalescença das feridas com que o vira, já de todo livre d’ellas, lhe escreveu Floriza, dizendo que, pois o vira em tal estado, e n’elle lhe parecera tão bem a sua gentileza, lhe pedia um retrato seu, tirado no campo em que elle fôra mais gentil-homem, e se contentára mais de suas partes. Elle, que em nada perdia o cuidado de se mostrar cortez, se mandou retratar no estado em que recebera a sua visita: e n’este lhe mandou o retrato, escrevendo-lhe que, só quando merecera a ventura de a vêr, se tivera por galhardo, e gentil-homem; e que não sómente n’aquella occasião, mas em todas as mais, que se lhe representasse aquelle bem, seria de si contente, e satisfeito. E tambem procurou logo ter da mesma senhora outro retrato no mesmo trajo, com que o viera visitar, tirado por o natural, com muito artificio, sem ella ter noticia d’esta diligencia, senão depois que era manifesto que o capitão o tinha na sua tenda mui venerado. E sobre um e outro se tratavam de recados com muitas gentilezas e cortezias, com a fama das quaes se accrescentou tanto a formosura e discrição de Floriza, que d’alli adeante era mais conhecida e requestada assim dos nobres do exercito, como dos senhores comarcãos, com que as suas terras avisinhavam. Sobre todos os mais entrou nesta affeição um gentil soldado filho do conde de Hieme, fidalgo, de cujo esforço, brio, e gentileza havia no campo geralmente muita satisfação, e em muitos soldados nobres não menor inveja. Este se determinou que na primeira occasião, que houvesse de assalto, havia de fazer mais do possivel por se encontrar, e provar as armas com o hespanhol, a quem Floriza mostrava tão declarada affeição. Porém como esta escolha havia de ser da sorte, e não da sua vontade, succedeu que a primeira occasião, que houve, de poderem vir ás armas, foi sobre o contrario querer ganhar um posto para se entrincheirar n’elle, e fazer sombra a uma mina secreta, que para seus intentos ordenava. Foi revelado este ao general; e com um dissimulado apercebimento tomou ás mãos os inimigos, entre os quaes captivou o gentil soldado, que se desejava assignalar n’aquella fronteira escurecendo a fama do Luzitano, a quem invejava. Elle, que já sabia d’aquella pretenção, fez muita diligencia para que ficasse depositado em seu poder; o que alcançou facilmente. E tratando-o logo com termos de excessiva brandura, e affabilidade, o tinha mais como hospede mimoso, que como preso vencido. De sorte que enleado elle lhe perguntou a causa, porque lhe fazia tantas mercês, podendo-o tratar como seu escravo, e ao menos do modo que o costumam fazer os capitães aos mais vencidos. “Eu (lhe disse o portuguez) vos trato como companheiro, por saber que, fóra da obrigação de Marte, nas de Cupido servimos ambos a um senhor: e sei que ainda n’esta egualdade me tendes muita vantagem, porque alcançaes na presença o premio de vossos extremos; e eu ausente faço só emprego de meus desejos; e por esta via me podera obrigar a inveja a má tenção, que em vós já fez o ciume. Porém como da senhora Floriza não pretendo mais, que ser ella amada, e servida como merece; e sei de vossa qualidade, e valor que sois digno sujeito da sua formosura, como a cousa já sua vos quiz antes offerecer a casa, que o campo: n’esta estareis servido, não como mereceis, e eu desejo, mas á medida das incommodidades da malicia, de que já tendes experiencia.” Não sómente espantado, mas corrido ficou o illustre mancebo do bom termo e gentileza do capitão: e pondo os olhos n’elle com o animo mais affeiçoado, que o com que partira do arraial, lhe disse: “Tão alcançado estou do meu engano, quão vencido e obrigado de vossa cortezia: e já, senhor, não desejarei liberdade d’esta prisão mais, que para ser mais vosso quando fôr meu: e agora vejo quão bem adivinhava o meu receio em me fazer que temesse a vossa competencia, só por o que a vossa fama lhe descobria; mas agora, pelo que sei da presença, não só confessarei o muito que ella acredita, mas que deve ainda muito mais ao vosso valor, e d’elle serei eu a mais fiel testemunha ante a senhora Floriza.” Eu, “senhor soldado (respondeu elle) no serviço d’esta senhora não pretendo mais, que, conhecendo-a por tal, não faltar a seu credito, honra, e satisfação, e conhecer ella de mim, junto com esta verdade, que não sou ingrato á mercê que me faz. E muito melhor satisfaço a esta obrigação em lhe gabar o muito que vos deve, e o quão acertada será a sua eleição, escolhendo-vos por esposo, que em me mostrar competidor com vossos pensamentos. Com este presupposto podeis usar da minha vontade, e companhia sem receio, nem ciume. E se vós tiverdes confiança, e ella me der licença que eu seja terceiro de se effeituar esta pretenção, d’aqui prometto de fazer extremos por facilitar brevemente o meio de vossa liberdade.” O soldado cada hora mais vencido, e devedor a tão bom procedimento, se lhe lançava aos pés, sem saber cousa que respondesse n’este mesmo intento. Tratou logo de sua soltura; a qual se fez brevemente com todos os mais, que n’aquella occasião ficaram presos; trocando-se por outros hespanhoes, que tambem havia no campo contrario. Por elle e em seu favor escreveu á formosa e agradecida Floriza, que com esta fineza de nova cortezia dobrou sua affeição: e vendo que elle era o que lhe havia escolhido tal esposo, o acceitou por esse, ficando ambos unidos em aquella fiel amisade do cortez Lusitano, que sempre conservaram, posto que nos limites de contrario a respeito de seu rei; que estes são os poderes da cortezia, que não só vence e obriga os mais barbaros animos do mundo, mas faz concordia e firme liança em corações tão inimigos.
—Excellente me pareceu a historia (disse o doutor) e ainda mais porque nos dá motivo para uma questão, que pode fazer esta noite mais agradavel, se a estes senhores parecer tão bem o meu voto como a historia do sr. Alberto. A isso responderam todos que o queriam seguir e obedecer: e, juntamente gabaram com muita satisfação aquelle exemplo de cortezia: e pedindo ao doutor que continuasse o que queria dizer, elle o fez em a maneira seguinte:—Pois são tão grandes os interesses da cortezia, e com exemplos, e razões tão approvado entre os bem nascidos o emprego d’ella, parecia-me a proposito esta pergunta, e é: “Com qual de duas cousas se obriga e grangeia mais o animo dos homens, se com a liberalidade, se com a cortezia? e os effeitos que cada uma d’ellas faz para este fim?” Bem pareceu aos amigos a questão: e depois que a approvaram, accudiu o prior:—Pouca duvida me parece que pode haver em apartar estas virtudes; porque, a meu parecer, a cortezia é sómente um effeito da liberalidade: e assim fica correndo melhor a pergunta d’este outro modo: Qual obriga mais os animos agradecidos, se o liberal da fazenda, se o que o é na cortezia? Porque a liberalidade é um habito do animo, que o move a dar aos benemeritos o que está na mão do liberal, ou pedindo-lh’o outrem, ou offerecendo-o elle: e isto pode ser dinheiro, cortezia, honra, logar, e outras cousas muitas.—Boa é essa razão (respondeu elle) porém com os vossos mesmos livros hei de sustentar a minha; que, conforme define Santo Agostinho, liberal é o que dá sem obrigação de lei, nem de promessa, e sem esperança de satisfação do que deu. E Santo Thomaz diz que a liberalidade é uma virtude, que sabe dispender as riquezas em bom uso. E Aristoteles de todo desempeça a questão, dizendo que é virtude, que com o dinheiro, e fazenda se mostra benefica aos homens. E d’este modo não pode a cortezia ser effeito da liberalidade; que ha muitos cortezãos pouco liberaes, e alguns liberaes pouco cortezãos.—Posto que me atrevo a muito (disse Feliciano) hei de dar entre as vossas minha razão com a de alguns auctores, que chamaram á liberalidade humanidade: porque verdadeiramente as obras de cada uma parecem muito eguaes, se ellas o não são; porque accudir ao pobre, dar ao benemerito, ser affavel, brando, e piedoso é humanidade; e os mesmos effeitos obra o liberal. E se a humanidade é a mesma cousa que a liberalidade, esta é a cortezia. E não o comprova menos o que escreve Aristoteles quando diz que a liberalidade pelo affecto se chama benignidade, e pelo effeito beneficencia: e vem a ser ambas uma mesma virtude.—Isso não (tornou o prior) mas diz Santo Agostinho que são companheiras liberalidade, humanidade, e clemencia. E por esta auctoridade sua, fundado nas mais razões que me ajudavam, tinha a opinião que o doutor não consente.—Os exemplos (tornou elle) nos mostrarão o engano; e a differença descobrirá a verdade. Primeiramente, o liberal, posto que o seja com a limitação que os auctores escrevem, que é dar ao necessitado, e benemerito o que ha de mister, sem que haja de sentir em si a falta do mesmo que deu; todavia fica sem a fazenda, ou dinheiro, que tem dado; e no que recebe fica viva a obrigação e a divida do que recebeu: e o cortez nem fica sem a honra que deu, nem o a quem honrou a fica devendo, sendo digno da mesma cortezia, e mostrando-se a ella agradecido. Pela mesma maneira tambem a humanidade nem é cortezia, nem liberalidade; porque ás vezes consiste em perdoar, e não já em dar, e em compadecer-se de males alheios, sem fazer n’elles despesa alguma; e em outros actos semelhantes: e d’este modo me parece que está bastantemente mostrada a differença, para tratarmos agora da que faz o cortez ao liberal em vencer e obrigar os animos agradecidos.—Parece-me (disse Leonardo) que da verdade da differença está dito o que baste, para que já o sr. D. Julio tome á sua conta dizer qual faz mais amavel, servido, respeitado e famoso a um cortezão, se o fazer cortezias, se o dispensar riquezas? E quem de cada uma d’estas cousas tem tanto exercicio, não lhe ha de faltar experiencia para tratar d’ellas com muitas vantagens.—As que me daes (tornou elle) quizera eu acreditar e merecer; e n’esta materia me vinha melhor ouvir para aprender, que falar para me escutarem: mas ainda que fique corrido, quero ser obediente. E tratando primeiro do liberal, me parece que o pode ser de duas maneiras; ou liberal por condição, e natureza, ou por prudencia, e entendimento; que é o que costuma a encher os vasios, e supprir as faltas d’ella. O liberal por natureza poucas vezes guarda a regra da vossa definição: porque não sabe negar, nem tratar de escolher; e mais consiste o acto da sua virtude no que lhe pede, que n’elle que ha de conceder.—Esses liberaes (disse Solino) são perigosos, e antes lhes chamara prodigos: porque ás vezes entornam o que haviam de dar, empregando-o em sujeitos depravados.—Com tudo isso (respondeu Pindaro) não faltou um auctor grave, que disse que o liberal não é obrigado a essa escolha: antes que fazer mercês a muitos, ainda que indignos, é obrigal-os a que as mereçam.—Tambem (replicou elle) quereis dizer que não será prodigo dando o que ha de mister.—Ao menos (tornou Pindaro) não direi que deixou de ser liberal: e Pomponio diz que é proprio do liberal não olhar, nem respeitar a si mesmo, senão aos que ha de accudir.—Pois a esse (disse Solino) almagrai-o por ladrão, ou por mentiroso: porque o que dá mais, do que pode, sem respeitar o que a si se deve, é necessario que furte a outrem para o poder fazer; e o que promette, ou concede mais do que tem, é forçado mentir a quem prometteu. De sorte que com estes dois vicios mal pode caber a virtude.—Eu (proseguiu D. Julio) darei á vossa duvida satisfação, repugnando um pouco á minha natureza por accudir á doutrina, e verdade dos escriptores; que pelo meu voto, para dar a quem o merece, se pode roubar a quem sem merecimentos o possue. E tornando ao meu ponto, o liberal por natureza quer fazer bem a todos, e não negar a nenhum dos que lhe pedem; mas temperando com a prudencia a condição, dá segundo o que tem: escolhe primeiro os que merecem, e o tempo e occasiões, em que aproveite o que dá. O que é liberal por entendimento, muitas vezes faz mercancia da liberalidade; e assim, posto que com ella obriga mais, lhe elevem menos: porque se muitas vezes a emprega nos que merecem quasi todas, busca os que hão de ser publicos pregoeiros do que deu. D’onde nasce que ha muitos senhores, que aos benemeritos faltam com as mercês, pelas empregarem em o chucarreiro que as publique, no espadachim que as encareça, no farçante que as mostre, no extrangeiro que as passe de um para outro reino, e ás vezes na dama que as assoalhe. O primeiro se faz amavel a todos; o segundo famoso a muitos; porém um obriga melhores animos, e adquire mais certos amigos que o outro; um compra corações, o outro enganos; porém ambos com a liberalidade prendem a vontade dos homens. O que se viu na sua miseria favorecido põe facilmente a vida por quem lhe deu a fazenda; onde ouve falar n’elle, o acredita: onde vê ir contra sua honra, o defende; na sua presença se humilha; ouvindo o seu nome, se alegra; e servindo-o se deleita e satisfaz. Para isto me não pareceu fraco conselho o que um auctor deu em culpa a um principe nosso. Porém serve aos liberaes por entendimento, e que não tem riquezas demasiadas para o poderem ser. E a culpa é que dera a muitos, e que a nenhum dera muito. E se isto no rei foi vicio, a mim me parece que nos senhores de menor logar é acertada cautella: porque basta que um tenha recebida uma obra boa para se obrigar a dizer bem de quem lh’a fez; e com muitas empenhando a muitos, terá a todos por devedores, e pregoeiros de sua largueza: tirando os de tão má natureza, que com a peçonha da lingua corrompem o bem que lhe fizeram: que para estes nem bastam os bens de Cresso, nem a condição de Alexandre.
E deixando exemplos antigos e modernos, com que posso provar o muito que póde a liberalidade para atar, vencer e adquirir animos agradecidos: com tudo me parece que tem muitas vantajens o cortez ao liberal: e a razão é; que a gente, que se obriga do soccorro do interesse, é de muito menor condição, que a que se cativa da cortezia; e quanto é maior ganho ser a esta amavel, que a outra acceito, tanto vence a cortezia á liberalidade para o effeito que dizemos. O pobre, o humilde, o necessitado, o perseguido, o homiziado, o vagabundo e o taful estimam mais vezes a fazenda que lhe dais, que a cortezia que lhe fazeis: porque o seu ponto não é de honra, senão de interesse. Mas o honrado, o nobre, o cavalheiro, o cortezão, o brioso, o discreto e o rico antes quer que o honreis, que não que o enriqueçais. Os grandes com cortezias roubam os corações dos menores, quando com maior liberalidade d’ellas os favorecem: porque o animo generoso, posto que sente muito a estreitesa propria, mais lhe custa o despreso alheio, por não perder a opinião que de si tem á conta do com que lhe faltou a fortuna. Contam que um principe hespanhol tinha um creado seu, a quem queria muito, e de cuja fidelidade confiava mais, conhecendo-o por verdadeiro, fiel, honrado e brioso: e encarecendo-lhe o principe a confiança que d’elle tinha, lhe perguntou: N. por que preço me fizereis uma traição? Ao que elle respondeu: A vós, senhor, por nenhum preço; mas por um despreso muito me receára de mim mesmo. De outro ouvi contar que, honrando com favor em publico a um creado seu, a quem não pagava bem os ordenados de seu serviço, e outras dividas caseiras; querendo depois o mesmo senhor fazer a conta d’estas obrigações, lhe respondeu o creado: Vós, senhor, me deveis o com que cuidastes que me pagaveis; e agora vos devo eu dares-me o que me não promettestes, e o que eu tinha em maior estimação: por isso fazei livro novo, riscando as lembranças passadas, que só as presentes o serão na minha memoria, na qual conheço que vos devo muito. De maneira que o que é nobre, ou tem partes que o sejam, mais abraça a cortezia que o proveito. E certo que até aos senhores vãos, e ambiciosos de serem endeosados está melhor esta liberalidade, que outra alguma: porque é grangearia não só para ser amado, mas para ser buscado e servido: porque sendo amavel por ella a todos, cada um o acompanha, o grangea, o louva, o acredita e deseja de lhe dar quanto tem; porque só tal homem lhe pareça digno de ter tudo. Tambem declaro que o cortez ha de ter a eleição do liberal, para não levar a todos por a mesma medida, mas distribuir conforme a razão os effeitos do dom, que lhe deu a natureza. E tem tal força de obrigar a cortezia, que não sómente a faz ao que a recebe, senão ainda aos que a vêem fazer, por satisfação, por imitação, por inveja, e por outros caminhos. Uma infante n’este reino tinha uma creada de não muita qualidade, porém de tantas partes, gentileza e discrição, que a antepunha a muitas que a serviam com melhor foro do que esta tinha, que era moça da camara. Desejando a senhora grangear-lhe a ventura e graça dos cortezãos, uma vez que viu a sua casa acompanhada d’elles, mandou em publico que lhe chamassem aquella creada, nomeando-a; e que lhe trouxesse papel e escrevaninha. Como isto era officio, que pertencia ás damas, veiu a moça; e esteve parada com o que trazia, esperando que o viesse tomar da sua mão quem tinha a cargo de o offerecer á infante: a qual tornando-a a chamar lhe disse em maneira que todos ouviram: Chegai; que, ainda que o officio seja de outrem, não podeis ter por estranho o que mereceis. E em quanto a moça esteve de joelhos, e a senhora escrevendo, lhe falava com o rosto cheio de alegria, dizendo-lhe entre outras coisas: O intento, que n’isto tenho, posto que logo o não saibas, d’aqui a pouco o virás a saber. Foi assim; que, vendo os cortezãos o caso que a infante d’ella fazia, um de muita qualidade a pediu para sua esposa, e se casou com ella, movendo-se de vêr aquella cortezia, para o que um copioso dote o não obrigára.—Extremamente provastes vossa tenção (disse o doutor) e me parece certo que essa é a verdade, que se ha de ter n’esta materia da cortezia: porque não póde a vileza do interesse egualar-se com a nobreza e magnanimidade da honra.—Galante coisa é (arguiu Solino) quereres vós temperar todas as panellas, e falar sempre á vontade ao senhor D. Julio, o qual n’esta occasião acudiu por si, para nos culpar a nós: porém elle e vós me dareis licença para que tire á luz uns embargos, que tenho a essa resolução; em os quaes entendo provar que só a liberalidade, no dispender faz amaveis aos liberaes, e aos devedores cativos. E se dizeis que não são estes os nobres; ouvi aos poetas que subiram mais a corda, dizendo que dadivas venciam homens, e obrigavam Deuses: e o rifão diz, que quebram pedras. Boa cousa é a cortezia, mas nenhuma comparação tem com a liberalidade. Falaes-me em quem dá o seu para soccorrer a outrem, no que soccorre ao aperto, á falta, á occasião, e á necessidade: que coisa poz aos homens entre as estrellas, se não o saberem dar? que só isto leva após si os homens, as feras, os animaes e as aves. O outro Plafon andava o seu nome no bico dos passaros pelos outeiros, e coruchéos da cidade de Ephezo, porque sustentava á sua custa as mesmas aves. E vós quereis que o outro, que não lança agua a pintos, só com uma inclinação dobrada, uma mesura rebatida, e umas palavras doces leve as lampas a um liberal? E além d’isto, como póde ser que obrigue e ganhe mais o que emprega menos? e que vença o cortez com uma barretada o que mereceu um liberal com obra tão custosa, como é dispender fazenda? Alexandre, Tito, Fabio, Flaminio, Tullo Hostilio, e outros similhantes, não deixaram assombrado o mundo com sua grandesa, e vencido o tempo com sua fama por cortezes, senão por liberaes: porque a cortezia não satisfaz mais que a vaidade; e a largueza acode ao principal da vida. E de mim confesso, como povo, que antes quero um descortez liberal, que um cortezão miseravel: porque esses cameleões da cortezia, que se sustentam com os ares d’ella, não são tão firmes como cuidais; nem ás vezes falam de fartos; e póde ser que não enjeitáram os comprimentos de contado, e que renunciaram facilmente os da urbanidade cortezã.—Não falta na companhia (disse Leonardo) quem queira defender a vossa parte, e a do liberal: porém uma duvida tenho, e é que esses, que de maior liberalidade fizeram extremos no mundo, todos eram prodigos como Alexandre, Tito, e outros similhantes.—Na dignidade real (disse D. Julio) cabem todas as grandezas sem a limitação com que tratamos d’esta virtude; que Alexandre dava cidades, e talentos, sem que esses lhe pudessem fazer falta: o que nos menores tem muita differença; porque o modo n’elles sustenta a virtude para que (como diz S. Jeronymo) com a muita liberalidade não pereça a liberalidade: e nos reis e monarcas a tenção acredita a obra, se é feita de arrogancia, e benignidade; porque o liberal sempre acha desculpa para haver de fazer mercês como Alexandre, que a Perilo se desculpa, conformando-se com quem era para não culpar a demasia do que lhe dava: e a Xenocrates, que lhe diz que não lhe são necessarios os cincoenta talentos que lhe manda, responde que, se tem amigos, para elles os ha mister, pois a elle não bastaram as riquezas de Dario para os que tinha. E pelo contrario Antigono, a quem Diogenes pedia um talento, se escuzou dizendo que pedia muito para philozopho; e pedindo-lhe um dinheiro, disse que era pouco para dar um rei. De maneira, que o que o avaro busca para negar, acha o generoso para fazer mercês, que, conforme ao que diz Marco Tullio, são grilhões da liberdade dos homens. E porque é tarde, me dai por desobrigado d’estes.