Estava n'uma gruta escura e fedorenta.
Havia emanações d'ardores de pimenta.
Tal escassez de luz havia á sua entrada
que adiante do nariz não se via mesmo nada.
E, como isto estranhasse, a musa me explicava:
O azeite litt'rario de preço não baixava: assim, cada luz tinha apenas a ração igual á d'aguardente que d'inverno dão aos soldados da Parvonia, filhos de Marte; que muito de proposito em aquella parte se punham as luzes em menos quantidade, a fim de mais brilhar a interna claridade… —é a arte dos effeitos, a arte phenom'nal, a grande alavanca do moderno ideal.—
E, caminhando por eterno corredor lodacento e escuro e de grande pendôr, topamos finalmente co'um largo portão, feito por modelo dos de repartição, com oculos de vidro e faces de baêta de sebenta, ignota côr, mas que par'cia preta.
Companheira musa com chave original (pois era retorcida em fórma d'espiral), a porta abrindo, diz, em tom desprezador:
—«Livraria-museu dos poetas de valor.»
Espantado, vi mumias negras e mirradas em buracas, nas duras rochas escavadas, immoveis, lugubres, horrivelmente feias. Passeavam por cima vermes e centopeias; toldavam-nas o bolor, a humidade e o pó; e torpes ratos insultavam-nas sem dó.
—«Ahi tendes Homero todo encapotado pelas teias d'aranha como um juiz togado. Vê, á Sapho gentil, como lhe ficam bem aquellas vegetações que nos labios tem: e como são curiosos esses cogumellos, pelo logar onde estão… tão roseos, tão bellos.»
«Deixa-me, por quem és, ó musa tagarella,
d'este quadro medonho fazer a—aguarella.»
—«Será a tua estreia: está dito então.
Mas has de fazel-a, logo, no salão.»
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