Uma pausa fez, e de tom mudando, em pose academica, foi chiando:
—«O tempo do romantismo já vae bem longe: morreu, quando morreu o derradeiro monge. A sciencia moderna dá a orientação á arte, á litteratura, á civilisação. Segue a sociedade na maneira de ser que hoje manifesta; copia-lhe o viver, se queres que te leiam, queres que te admirem, se queres que te applaudam e por ti suspirem: —porque o suspirar, embora termo antigo, é um acto real que todos teem comsigo.—
Descantar amores é carunchoso, é velho: atira isso ao lixo, toma o meu conselho.
As flores não cantes… Canta sómente as brancas, a côr da pureza: com isso não espancas o realismo puro, embora as côres quentes tenham mais procura e sejam as mais decentes, —por serem mais sadias á face da sciencia— não que as brancas sejam alguma indecencia.
Não cantes os lirios: isso é velharia; tens o roxo das chagas que está mais em dia.
Nunca falles nas puras aguas do arroio: isso é asneira; apenas rima com saloio e poucos termos mais. Falla na copahiba, que é liquido bom, muito usado lá p'ra riba pelas altas regiões do deboche doirado. Pódes fallar, tambem, no cel'bre preparado de Gibert, de Raquin, e na Salsa-parrilha…»
—«Quem és tu? minha cara de pandilha! serás abelha-mestra, ou boticaria? serás bruxa com loja de hervanaria, ou annuncio de drogas, por acaso?»
—«Eu sou a velha musa do Parnaso
que, inspirada na sciencia dos effeitos,
despida de rançosos preconceitos,
abracei a moderna poesia,
e conquisto mil adeptos por dia.»
—«Ó musa moderna, eu te saúdo!
e por ti me declaro amurudo
se ensinas a fazer al'xandrinos
mais sonoros, bellos, mais divinos
que os gorgeios do proprio rouxinol.
Juro!… nem cantar o girasol,
que preciso é aqui para rimar.
Antes, porém, haveis d'explicar
como, velhos preconceitos tu despindo,
a vestimenta conservas, que no Pindo
usavas em a era romanesca.»
—«Conservo-a por ser bastante fresca.
A frescura é cousa indispensavel
para crear um nome perduravel.»