—«N'esse caso vou cantar o nú
como diz o dito—mesmo crú.»
—«Amigo: até isso vae sendo já safado… e comtudo explorar o que está explorado, por séria difficuldade, passa hoje em dia. Com arte fina e certas manhas, todavia, tudo se consegue.
Vem tu dahi commigo, verás como é certo e bem certo o que te digo.»
II
Eis-me transportado pelo espaço furando por pesada athmosphera, com risco de quebrar o espinhaço, pois nem umas azas de chimera a pulha da musa m'emprestou. Ella pela gola me agarrava e todo o caminho me levou suspendido, emquanto caminhava.
Por fim pousou-me n'uma rua estreita como um bêcco da decantada Alfama.
—«Amigo! tudo que vires, attento, espreita, se queres ser apregoado pela Fama. Estamos no meu Reino: aqui tudo respira quanto a teu estro falta e tão sedento aspira.»
E vi o solo lamacento, immundo, exhalando o cheiro acre e nauseabundo que sae das negras aguas d'um enxurro. Aqui, além, saltavam do monturo vadios e magros cães de torvo olhar, desconfiados que lhes vão disputar, andrajosos mendigos seus collegas, as presas immergidas nas bodegas.
Escorregando como um borrachão vi-me em risco de beijocar o chão; e se a musa amiga me não ampara certamente que partiria a cara.
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