Soube que o governador era casado ia já em dois annos, desde uma viagem que fizéra a Moscou. Desposara uma joven muito rica, de optima familia. A generala era muito soberba e só dansava com generaes, (havia nove no baile). A generala tem em sua companhia a mãe, senhora intelligentissima da mais alta aristocracia, mas que se submete á vontade da filha. E d'ahi, o general extasia-se tambem deante d'esta. Mozgliakov referia-se ao Aphanassi Matveich, mas n'aquella região remota ninguem dava noticia delle.

Um tanto restabelecido d'aquelle seu sobresalto, Mozgliakov deu uma volta pelas salas e lobrigou Maria Alexandrovna, vestida com singeleza e, muito animada, a falar com uma personagem graúda. Faziam-lhe cerco varias senhoras que lhe sollicitavam a boa sombra. Maria Alexandrovna era amavel com toda a gente.

Mozgliakov arriscou-se e foi-se-lhe apresentar. Maria Alexandrovna teve assim a modos de um estremeção, mas sopitou-se, acto-continuo. Dignou-se reconhecêl-o e pediu-lhe novas dos seus amigos de Petersburgo. A respeito de Mordassov, nem palavra e foi como se tal coisa não existisse, em conclusão, proferiu o nome de um qualquer principe estranho ao Mozgliakov, voltou-lhe as costas sem affectação, dirigindo-se a uma personagem graúda de cabello grisalho e aromatizado, e d'ali a instantes, dir-se-hia haver-se esquecido de todo de Pavel Alexandrovitch, que ficou{193} para ali com cara de tolo, diante della. Mozgliakov, engatilhando um sorriso sarcastico, e de chapeu na mão, regressou para a sala nobre. Não sei dizer o motivo, mas considerava-se offendido e não se prestou a dansar. Nunca mais lhe desampararam o semblante quer uns ares tristes e de distracção quer um méfistofélico sorriso! Recovado em pinturesca atitude a uma columna, (parecia que de proposito, tinha columnas o salão), e toda a santa noite, horas a seguir, para ali se deixou estar no mesmo posto, a seguir com os olhos a Zina. Tempo perdido, infelizmente! Todas aquellas artimanhas, aquelles tregeitos todos, aquelles ares romanticos e de nimia decepção... etc... etc... nada lhe valeu... A Zina nem sequer deu fé da sua presença. Até que por fim, estafado, exasperado, com os pés dormentes em resultado da immobilidade, faminto, pois não tinha ceado a fim de melhor sustentar o seu papel de amante dolorido, recolheu para sua casa, derreado, abatido. E esteve a pé horas esquecidas, a matutar no passado... Logo no dia immediato, pediu transferencia e alcançou uma missão que o reconduziu a Petersburgo. Voltou a serenidade a entrar-lhe na alma assim que voltou costas á cidade. Lá ao longe, o espaço, o infinito, o deserto, a denegrida neve das florestas nos confins do horizonte. Ao som das patas dos cavallos a chofrarem, e a acompanharem o retinir e o telintar das campainhas. Pavel Alexandrovitch esteve pensativo, por instantes, mas depois, adormeceu muito socegado da sua vida.

Acordou na terceira muda, fresco, bem disposto, e a pensar noutra coisa.

FIM

{194}

[[1]] Mestre escola

[[2]] Proprietario territorial.

[[3]] Poeta russo.

[[4]] Sacristão.