Mas não nos tornemos éco de boatos sem fundamento. É falso tudo isso.

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Já lá vão três annos desde que eu escrevi as linhas que acabaes de ler. Quem me diria que ainda havia de vir a folhear o manuscripto para lhe accrescentar ainda mais uma lauda?{191}

Mas vamos ao facto:

Principiarei por Pavel Alexandrovitch Mozgliakov.

Ao ausentar-se de Mordassov, foi direitinho a Petersburgo, onde alcançou o logar que lhe andava prometido havia muito tempo. Não tardou em se lhe franquearem as portas da sociedade, infronhou-se n'umas intrigalhas, guindou-se ás alturas de espirito do século, tornou a apaixonar-se, renovou o seu pedido, voltou a apanhar um não pelas ventas, enguliu-o, e não podendo digeril-o, sollicitou o ser incorporado a uma expedição enviada a um dos cantos mais remotos d'este nosso paiz sem limites.

O corpo expedicionario transpôz sem novidade de maior florestas e desertos, alcançando a capital da longinqua região.

Foi acolhido pelo general-governador.

Era um homem magro e de semblante severo, um velho militar, ferido em diversas campanhas, condecorado com dois cráchás e com uma cruz branca. Convidou a todos os tchinovniks para um baile effectuado aquella mesma noite.

Pavel Alexandrovitch estava encantado. Envergara a sua casaca petersburguense, com a qual contava para produzir immenso effeito, e deu entrada nas salas nobres com modo desassombrado. Não tardou porém a perder o aprumo em presença de tanta dragona de cachos e de tanta farda enfeitada de commendas. Cumpria-lhe ir fazer a sua venia á esposa do governador, nóva, diziam, e formosissima. Aproxima-se, muito senhor de si,—mas—de subito,—escancara a bôca, e fica pregado ao chão, de assombrado. Com um sumptuoso vestido de baile, surge-lhe na frente a Zina, feraz, soberba, linda, e resplandecente{192} de joias, toda ella. Nem conheceu o Pavel Alexandrovitch, os seus olhos nem se detiveram sequer no semblante de mancebo. Mozgliakov recuou e foi perder-se entre a turba-multa, e soube da bôca de um juvenil tchinovnick coisas interessantissimas.