—Serve-se de chá, principe? pergunta Maria Alexandrovna desviando a attenção do jarreta para um groom, parado defronte d'elle com uma bandeja.

O principe serve-se de uma chavena de chá e contempla o groom de bochechas rochonchudas e rosadas.

—Ah! ah! ah! É seu filho? Perfeito, muito perfeito! e... e... e... bem comportado, já se vê?

—Perdão, principe... accode pressurosa Maria Alexandrovna. Ainda estou toda a tremer... Com que, então, deu uma quéda? Não se magoaria? Não é prudente arriscar a sua pessoa em semelhantes aventuras!...

—Virou-se! virou-se! O cocheiro virou a carruagem commigo dentro! exclama o principe com extraordinaria animação. E eu, a pensar que era o fim do mundo ou coisa parecida. Os santos me perdoem: apanhei um susto... vi as estrellas ao meio dia, eu esperava lá!... eu es... pera... va lá!... E tudo aquillo, por culpa do meu cocheiro, do Pamphilio: entrego-te este negocio, meu amigo, has de tratar do inquerito... Estou convencido de que attentou contra a minha vida!{35}

—Muito bem! muito bem, tiosinho! responde Pavel Alexandrovitch, fica a meu cuidado. Mas oiça lá; se lhe perdoasse por esta vez, hein, que lhe parece?

—Por caso nenhum! Tenho a certeza de que quiz dar cabo de mim, elle e mais o Lavrenty, que eu deixei lá em casa. Ora imaginem, encasquetaram-se-lhe as taes ideias novas, uma negação... que eu sei lá... e era um communista em toda a extensão da palavra. Quando me vejo a sós com elle... fico logo em suores frios.

—Ah! que verdade, principe! Não pôe na sua ideia o que eu tambem tenho aturado a esta sucia! Já despedi por duas vezes toda a creadagem. Que gente tão estupida! Anda uma pessoa a ralhar com elles de manhã até á noite.

—E... stá claro! Gosto de ver um lacaio que não fure paredes, observou o principe, satisfeito, como aliás succede aos velhos, de que lhes escutem com respeito a tagarelice,—é até a principal qualidade de qualquer lacaio,... uma to... leima sincera... em certas occasiões. Incute-lhes uma certa imponencia... solemnidade! N'uma palavra, é mais distincto, e eu, a primeira qualidade que exijo a um serviçal é a distincção. É por isso, que conservo o Tarenty, estás lembrado do Tarenty, meu amigo? Assim que o vi, percebi-lhe a vocação: Has de ser porteiro. É phe... e-nome-nalmente es... tupido. Com aquelles olhos de carneiro mal morto: Mas que boa presença! que solemnidade! Em pondo a gravata branca, faz um figurão! Gosto d'elle deveras! Eu, ás vezes, ponho-me a olhar para elle, e não me canço de o ver: ali onde o vêem, está escrevendo um livro... É um verdadeiro philosopho a... al... lemão,{36} o proprio Kant, ou antes, um, perú gordo e bem comido, um ser incompleto, tal qual cumpre a todo e qualquer se... er... viçal.

Maria Alexandrovna ri ás gargalhadas e bate palmas; Pavel Alexandrovitch faz côro: acha immensa graça ao tio. A Nastassia Petrovna ri tambem; e a propria Zina dá um ar de riso.