—Mas que graça, principe! que alegria! exclama Maria Alexandrovna. Que preciosa faculdade de observar ridiculos... E desappareceu o senhor da sociedade! Privar assim de um talento o mundo durante cinco annos inteiros!... Mas podia até escrever comedias, principe! Podia muito bem restituir-nos Visine, Griboiedov, Gogol!
—É verdade, é verdade!... confirma encantado o principe... eu podia restituir... Quer crêr? Eu d'antes tinha muita graça, até escrevi para o theatro um vô... ô... deville. Com umas coplas que eram uma delicia! Por signal que nunca foi representado.
—Que pena! Como havia de ser divertido? Sabes o que te digo, Zina, que vinha mesmo a proposito. Nós, justamente, principe, andamos a combinar umas récitas de amadores com um fim de beneficencia patriotica, em favor dos feridos... Vinha mesmo ao pintar o seu vaudeville.
—E... stá claro, estou prompto a escrevêl-o. De mais a mais, já nem me lembra uma palavra, mas tenho de memoria um ou dois trocadilhos que... (O principe beija as pontas dos dedos.) Eu, em geral, quando estava no estrangeiro... fazia um verda... deiro furor... Lembro-me de mylord Byron... fomos muito intimos... Dansava á maravilha a krakoviak no congresso de Vienna... {37}
—Mylord Byron, meu tio? Ora vamos, que está para ahi a dizer!
—Está claro!... Byron. E d'ahi, talvez fosse outro. Exactamente, era um polaco, lembro-me agora muito bem; um grande original, o tal polaco! Intitulava-se conde, e porfim, veiu-se a saber que era cozinheiro.
Mas dansava lindamente a krakoviak. Quebrou uma perna. Foi n'essa occasião, até, que lhe fiz estes versos:
O nosso conde polaco
Dansava a krakoviak
E d'ahi... já me esqueceu... ah!
Desde que partiu a perna,
Nunca mais pôde dansar.