—Sim, sim, deve de ser isso, rico tiozinho! exclama Mozgliakov, pôdre de riso!
—Está c-claro! Quer-me parecer que seria isto ou coisa que o valha. E d'ahi é possivel que não seja. O que lhes sei dizer é que os versos me saíram muito bons. Escapam-me certas coisas, tenho tanto que fazer!
—Mas, não me dirá, principe, pergunta com muito interesse Maria Alexandrovna, em que é que se occupa n'aquella sua solidão? Lembrava-me tanta vez do principe! Estou a arder de impaciencia por saber tudo por miudos...
—Em que é que me occupo! Ora essa... immensa coisa em que me occupar... em geral. Umas vezes descanso, outras vezes dou o meu passeio... a imaginar cá umas coisas... {38}
—Deve de ter muita imaginação, rico tiozinho.
—Muita, meu caro. Ás vezes, acontece-me imaginar coisas de que eu proprio fico pasmado. Quando eu estava em Kadnievo... A proposito, tu não foste vice-governador em Kadnievo?
—Eu, tiozinho? Que está dizendo! Pelo amor de Deus! exclama Pavel Alexandrovitch.
—E eu a confundir-te com elle...
E dizia eu commigo: Por que será que elle está tão mudado?... Porque o outro tinha uma phisionomia imponente, espirituosa... um homem extra-a-ordina... ria... mente intelligente. Compunha sempre versos... a proposito... De perfil, era tal qual um rei de copas.
—Acredite, principe, interrompeu Maria Alexandrovna, essa vida ha de deitál-o a perder, lhe juro eu! Encerrar-se durante cinco annos n'um ermo! Não ver, não ouvir pessoa alguma!... Sabe o que lhe digo, o principe é um homem perdido! Pergunte a algum dos seus amigos, que lhe sejam fieis, e todos lhe dirão isto mesmo: é um homem perdido!