—De... de... vé-éras? arrasta o principe.
—Com certeza... Digo-lh'o como se fôra uma irmã, porque sou muito sua amiga,—pois que as recordações do passado, para mim são sagradas. Que interesse poderia eu ter em o enganar? Nada, nada, é preciso absolutamente mudar de vida, aliás, não resiste?...
—Valha-me Deus! pois eu hei de morrer, assim, tão depressa? exclama o principe, assustadissimo. E caso é que adivinhou: as minhas humorroides dão cabo de mim, e ha uns tempos para cá, principalmente... e quando me{39} atacam as crises, tenho sin-tó-ó-mas es... espan... tosos... Eu já lhe vou contar tudo... por miudos...
—Deixe lá, tiozinho, contará isso tudo, para outra vez. Agora, não será tempo de irmos dar o nosso passeio?
—Pois, sim, vá lá, ficará para outra vez; e d'ahi talvez não interésse... Mas com tudo isso... é uma doença... extrê-ê-mamente interessante. Com uma tal variedade de episodios! Vê se me lembras, meu caro, contar esta noite, com todos os pormenores, uma certa particularidade das humorroides.
—Ora, escute, principe, atalhou ainda Maria Alexandrovna. Devia ir ao estrangeiro, para ver se se curava.
—É isso, é! Ao estrangeiro, absolutamente. Lembro-me de que, ahi por 1820, a gente divertia-se im-men-sa-mente no estrangeiro. Estive para casar com uma viscondessa, e era francêsa. Eu estava apaixonado por ella, e queria consagrar-lhe toda a minha vida. Que ella, aliás, casou com outro... Caso exquisito!... Tinha estado em casa della não havia ainda duas horas, e foi n'este meio tempo que um barão allemão a conquistou. Veiu a acabar n'um hospital de doidos.
—Mas, caro principe, estavamos falando na sua saúde, e dizia-lhe eu que devia pensar n'isso muito a sério. Ha grandes medicos lá pelo estrangeiro. De mais a mais a mudança de ar, já por si, é importantissima. Terá que renunciar a Dukhanovo, por uns tempos, quando menos.
—Abso-o-lu-tamente! Já me conformei, tenciono tratar-me pela hy-dro... the... rapia.
—Pela hydrotherapia?{40}