—Está claro! Foi isso mesmo que eu disse, pela hy... dro... the... rapia. Já me tratei pela hy... drotherapia. Estava eu nas aguas. Tambem lá estava uma senhora de Moscou, varreu-se-me o nome, uma mulher muito poetica, com setenta annos, ou coisa assim; tinha uma filha com uns cincoenta annos, e com uma belida n'um olho. Falavam ambas sempre em verso. Aconteceu-lhe um desastre! N'um fogacho de genio, matou o criado. Teve seus da-res e to... mares com a justiça. E como eu ia dizendo, puzeram-me no regimen da agua; que eu, ainda assim, não estava doente: mas se não faziam senão dizer-me "Trate de si! trate de si!" E eu, por delicadeza, puz-me a beber a agua e, effectivamente, senti allivio. Bebi, bebi, e tornei a beber! Acho que bebi um lago inteiro... É optima coisa a tal hy-dro-the-rapia. Dou-me muito bem. Eu, se não tivesse caído de cama, tinha passado lindamente.
—Lá isso é verdade, rico tio. Ora dize-me, rico tio, aprendeste logica?
—Valha-o Deus! Que pergunta? observa Maria Alexandrovna, escandalizada.
—Está c-claro, meu amigo... ha muito tempo, aqui para nós. Estudei philosophia, na Allemanha. Frequentei os cursos todos mas d'ali a pouco esqueceu-me tudo... Mas... confesso, metteu-me um tal susto no corpo com as taes do... enças que... fiquei atarantado... Eu volto já. Dêem-me licença!
—Aonde vae, principe? exclama, pasmada, Maria Alexandrovna.
—Não tardo aqui. Não me demoro... Vou apenas... assentar um pensamento... Até já... {41}
—Que tal lhe pareceu? exclama Pavel Alexandrovitch, á gargalhada.
Maria Alexandrovna perde de todo a paciencia.
—Eu não o entendo, na verdade, não posso comprehender de que é que se ri!—começa ella com animação. Rir de um ancião respeitavel, de um parente! Rebentar a rir a cada palavra que elle solta da bôcca! Abusar d'aquella bondade evangelica! Tenho até vergonha de o ouvir, Pavel Alexandrovitch! Mas não me dirá o que é que lhe encontra de ridiculo? Ainda não fui capaz de lhe notar o lado ridiculo.
—Mas se nunca conhece ninguem, se não faz senão metter os pés pelas mãos!