—Ahi tem as consequencias do tal sequestro de cinco annos entregue á guarda d'aquella megéra! Devemos antes ter dó d'elle, em vez de rirmos á sua custa. Veja lá, nem a mim mesmo me conheceu, até! O senhor foi testemunha. Pois não é terrivel! É preciso salvá-lo. Eu, se lhe propuz ir ao estrangeiro, foi na esperança de que se resolva a largar de mão aquella... regateira.

—Sabe o que lhe digo, é preciso casál-o, Maria Alexandrovna.

—E o senhor a dar-lhe! É incorrigivel, senhor Mozgliakov.

—Não sou, acredite, Maria Alexandrovna, eu, d'esta vez, estou falando até muito a sério. Por que é que o não havemos de casar? É uma ideia como outra qualquer. Em que é que isso o pode prejudicar? No estado a que elle chegou, é um expediente que o pode salvar, creio eu. A lei ainda lhe permitte casar. D'esse modo, vê-se livre d'aquella desavergonhada,{42} desculpe a expressão. Escolherá para ahi qualquer menina, ou qualquer viuva honesta, intelligente, carinhosa e pobre, sobretudo, que não deixará de o tratar como filha e que comprehenderá que lhe deve ser grata. Que coisa melhor lhe poderia acontecer? Um coração terno e fiel, em vez d'aquella... moita! Está claro que convem que seja bonita, pois o tio professa ainda o culto da belleza. Não viu os olhos que elle deitava á Zinaida Aphanassievna?

—E onde irá desencantar semelhante ideal? pergunta Nastassia Petrovna toda ella ouvidos.

—Não está má pergunta? A senhora, por exemplo, sem irmos mais longe... se me dá licença, perguntar-lhe-hei por que é que não ha de casar com o principe? Primeiro e segundo, porque é bonita, e viuva, ainda por cima. Terceiro, por que é fidalga. Quarto, por que é honestissima. Ha de amá-lo, amimá-lo, pôr na rua a tal carcereira, carregar com o principe para o estrangeiro, dar-lhe papinha e goloseimas... tudo isto até que chegue o dia em que elle diga adeus a este mundo de amarguras, o que tardará para ahi um anno, quando muito, ou um mez ou dois, quem sabe; depois fica sendo princesa, viuva, rica e, para compensar o trabalho, casa para ahi com um marquez qualquer, ou um general. É bonito, pois não acha?

—Ai! Deus meu! Que amor eu lhe havia de ter, por gratidão, quando por mais não fosse, se elle pedisse a minha mão! exclama Madame Ziablova.

Os olhos feriram-lhe lume, até.

—Mas, isso sim!... são sonhos!...

—Sonhos? Tem empenho em que se realisem? Experimente,{43} peça-me que lhe alcance essa pechincha. E corto desde já este dedo se hoje mesmo não fôr noiva do principe. Não ha nada mais facil do que persuadir o meu tio. Diz sempre a tudo, que sim. A senhora bem o ouviu, ha boccado. Casamol-o sem elle dar por isso. Enganamol-o, é verdade, mas se é para seu bem, pois não acha? Em todo o caso, a senhora do que devia tratar era de ir arranjando uma toilette á altura das circumstancias, Nastassia Petrovna.