A Zina volta com muito vagar para a mãe o descorado semblante e aquelles olhos sonhadores.{48}

—Zina, tenho que te falar em negocio importante.

Está de pé a Zina; cruza os braços e espera. Deslisa-lhe pelo semblante expressão fugaz de despeito e de ironia.

—Quero perguntar-te qual é a tua opinião a respeito d'este tal Mozgliakov?

—Está farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo constrangido.

—Pois sim, filha, mas está-me parecendo que se vae tornando um tanto ou quanto impertinente, atrevido; e em conclusão, aquella sua insistencia...

—Diz elle que me ama; se assim fôr, acho perdoavel a sua insistencia.

—Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, não o desculpavas, assim, tanto;... antes pelo contrario, eras, até, muito rispida para com elle, sempre que eu a elle me referia.

—E a mim, o que me causa admiração é outra circumstancia: A mamã, d'antes, estava sempre a defendêl-o, e é agora a propria a condemnál-o.

—Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vêr-te assim sempre, tão triste.—Avaliava bem a tua tristeza,—pois sou capaz de a comprehender, seja qual fôr o juizo que faças a meu respeito.—Chegou até a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que só uma mudança radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudança, ha de ser o casamento. Não somos ricos, não podemos ir dar a nossa volta pelo estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda solteira aos vinte e três annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas{49} poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haverá por aqui marido á altura dos teus merecimentos? É certo que o Mozgliakov é apenas um peralvilho, e com tudo isso, de todos elles, é ainda o mais acceitavel. É de boa familia, dôno de cincoenta mil almas: sempre valerá mais que um procurador que vive de propinas e á custa Deus sabe de que tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me convenço hoje de que era o Suprêmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiança como advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido mais vantajoso, não serias tu a propria a louvar-me de não ter até hoje dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada lhe terás dito de positivo.—Pois não é verdade?