—Para que servirão tantos rodeios, mamã? quando podia muito bem ter-me dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.

—Rodeios, Zina! Serão coisas que se digam a tua mãe? Ah! Vejo que de modo nenhum te mereço confiança! Consideras-me como inimiga muito mais do que como mãe!

—Acabemos com isto, minha mãe. Parece-lhe bonito ficarmos para aqui a fazer questão de palavras? Não estaremos fartas de nos conhecermos uma á outra?

—Repara em que me estás offendendo, minha filha. Pois não vês que estou resolvida a tudo, a tudo, comtanto que tu sejas feliz?

A Zina põe-se a olhar para a mãe com aquella singularissima expressão de despeito e ironia.{50}

—Não estará morrendo por que eu case com o principe para complemento da minha ventura? pergunta a joven com extranho sorriso.

—Nem sequer te disse uma palavra a semelhante respeito, mas visto que isso veiu á teia, dir-te-hei que, se fosse possivel, representaria para ti a felicidade, effectivamente.

—Pois eu acho isso pueril, exclama a Zina toda assommada, pueril, pueril e mais que pueril! e acho, ainda, que a mamã é dotada de excessiva imaginação: é uma mulher poetica; e tanto mais que é assim que a classificam em Mordassov. Está sempre a fazer planos. Nem lhe mettem medo impossibilidades. Assim que vi o principe, tive um presentimento, de como não deixaria de lhe accudir semelhante ideia. Quando o Mozgliakov mettia o caso a ridiculo e pretendia que era urgente casál-o, li no semblante á mamã o pensamento. E d'ahi, foi para me falar n'esse jarreta que a mamã principiou por se referir ao Mozgliakov. Mas esses seus sonhos aborrecem-me de morte, não sei se sabe? E peço-lhe que fiquêmos por aqui!... Nem mais uma palavra, entendeu, mamã? Nem mais uma palavra! Peço-lhe que tome a serio isto que acaba de ouvir da minha bocca.

—És uma criança, Zina, uma criança doente, e com mau genio! responde Maria Alexandrovna em voz meliflua; e estás-me faltando ao respeito.—Offendes-me! Não ha mãe que aturasse o que eu te tenho aturado! Mas padeces, e eu acima de tudo sou christã. Vou aturando, e perdôo-te. Responde-me a uma pergunta, só e mais nada, Zina. Vamos que eu, effectivamente, tivesse sonhado semelhante{51} alliança, onde é que está a puerilidade?—Quanto a mim, nunca o Mozgliakov falou com tanto acerto como ainda agora, quando tentava demonstrar que o casamento é uma necessidade para o principe. O disparate era o ter-se lembrado d'aquella fufia da Nastassia.

—Mamã, declare-me com franqueza, se me está dizendo isso por méra curiosidade ou com um fim qualquer.