—Mas, então... tambem estava em casa da Natalia Dmitrievna? A senhora? Cuidei que...
—Então que quer! Ella offendeu-me, a semana passada, e não me ensaiei para o pespegar a toda a gente. Mas que quer, minha amiguinha, se eu estava morta por ver o principe, ainda que fosse por uma greta da porta, e ahi tem por que é que lá fui, apezar de tudo, a casa da Natalia Dmitrievna;{68} a não ser o principe, não era eu que lá tornava a pôr os pés! Ora imagine; servem chocolate a toda a gente, e a mim, nem raça, nem sequer abrem a bocca para me pedir desculpa! Ha de ter noticias minhas! Mas adeus, meu anjo, vou-me embora, estou com muita pressa... é-me indispensavel encontrar em casa a Apulina Panfilovna para lhe contar o caso. Ah! Pode-se desde já considerar viuva da lindeza do tal principe, não é elle que volta para sua casa. Está perdido da memoria, bem sabe, e a Anna Nikolaievna terá cuidado em o não deixar saír.
Estão com medo de que a minha amiga... todas ellas... não sei se percebe? a proposito da Zina...
—Que horror!
—É como lhe digo; já corre até por essa cidade. A Anna Nikolaievna não o deixa saír sem jantar e depois não o larga. Os planos d'ella são todos elles armados contra a senhora, meu anjo! Fui deitando o olho para o pateo: que reboliço! Prepararam um jantar com trinta entradas, mandaram vir champanhe. Quer um conselho? Veja se trata de lhe deitar a mão antes de que elle vá a casa d'ella. Não, que elle, pertence-lhe, é seu hospede! Não se deixe engazupar por aquella espertalhona, por aquella ranhosa! Não vale a sola de um sapato, lá com ser mulher de um procurador. E eu, aqui onde me vê, sou coronela, fui educada no collegio aristocratico de Madame Jarmé... Forte nojo! Adeus, meu anjinho, tenho o trenó á espera, se não fosse isso, fazia-lhe companhia.
E abalou a gazeta viva.
Maria Alexandrovna, desesperada, toda ella n'um tremor. Não padece duvida que o conselho da coronela é seguro e{69} pratico; não ha tempo para perder, mas subsiste ainda a grande difficuldade.
Maria Alexandrovna investe para o quarto da Zina. A Zina andava ás voltas pela casa, de mãos no peito, muito enfiada, cabisbaixa, no auge da afflicção. Borbotavam-lhe nos olhos as lagrimas. Fulge-lhe porém no semblante uma expressão de decisão, assim que põe os olhos na mãe. Engole as lagrimas e refega-lhe os labios um risinho sarcastico.
—Mamã, diz ella, antecipando-se a Maria Alexandrovna, desperdiçou thesouros de eloquencia em minha honra, de mais, até, visto que me não conseguiu cegar a vista, e eu não ser nenhuma creança. Querer persuadir-me de que, eu, casando com o principe, ia praticar um acto de irmã de caridade,—profissão para que não sinto a minima vocação,—justificar mediante um nobre fim baixezas egoistas, tudo isso representa apenas o mais grosseiro egoismo, entendeu?
—Porém, meu anjo...