—Cale-se, mamã, tenha paciencia, e oiça-me até ao fim. Saiba, pois, que tenho a consciencia da sua hypocrisia. Estou pois plenamente convencida de que o verdadeiro fim de tudo isto é vil; e comtudo, acceito a sua proposta, completamente, mas completamente, entendeu? Estou prompta a casar com o tal principe, prompta a ajudar os seus esforços no sentido de o convencer a casar commigo. O motivo d'esta minha resolução, não é da conta da mamã, baste-lhe saber que me prontifico a tudo: ajudál-o-hei a enfiar as botas, serei sua creada, hei de dansar para que elle se não arrependa de ter casado commigo. Mas, em troca, peço-lhe{70} que me diga, o modo por que pretende alcançar semelhante resultado. Não ponho em duvida, visto que se empenha n'este negocio, o facto da mamã ter já urdido o seu plano. Transmita-m'o, seja franca uma vez na sua vida, eis as minhas condições.

Maria Alexandrovna ficou tão embatucada, que emudeceu sem bulir com um dedo, com os olhos espipados. Contara com a lucta contra as ideias romanescas da filha, e ficou estupefacta ao vêl-a decidida a agir contra as proprias convicções. O negocio toma verdadeira consistencia. Maria Alexandrovna, lá por dentro, não cabe em si de contente.

—Zinotchka! exclama enthusiasmada, és a carne da minha carne e o osso dos meus óssos!

Nem uma palavra mais pode accrescentar, lança-se nos braços da filha.

—Ah! meu Deus! Dispense-me dos seus abraços, mamã! respondeu, enfadada, a Zina. É absolutamente deslocado esse seu enthusiasmo. Exijo uma resposta á minha pergunta, e nada mais!

—Mas, Zina, eu amo-te, adoro-te, e tu a repelires-me! É para te ver feliz que eu ando a trabalhar. E, dos olhos de Maria Alexandrovna borbotavam lagrimas sincéras. Effectivamente, ama a seu modo a Zina, e d'ahi, a commoção do triumpho torna-a tão sentimental como qualquer baba,[[9]] áquelle general de saias. A Zina sente bem, a despeito de tudo, que a mãe é sua amiga; mas pésa-lhe semelhante amor, preferir-lhe-hia o odio.{71}

—Pois bem! Não se zangue, mamã; sei muito bem o que vou fazer, se eu estou tão afflicta!... disse para tranquillizál-a.

—Eu não me zango, não me zango, meu anjinho, cacarêja Maria Alexandrovna recuperando animo. Não deixo de avaliar a tua agitação. Mas não vês tu, querida amiguinha... tu pediste-me franqueza... Seja assim, serei franca, mas acredita-me. Lá quanto a um plano inteiramente definido, é coisa que ainda não tenho, nem o posso ter: tudo depende das circumstancias. Antevejo até algumas difficuldades.

... Se aquella pêga, aindagora, esteve-me para ahi a grasnar um chorrilho de pessimas noticias. (Ah! meu Deus! não tenho tempo para perder!) Serei pois franca: juro-te que hei de conseguir o meu fim. Não vás acreditar n'uma miragem qualquer, n'uma illusão; o meu plano assenta todo elle na toleima do principe, e representa isso uma talagarça em que se pode bordar tudo que se quiser. O mais importante é que nos deixem operar. E demais, essas fufias nada podem contra mim! exclama Maria Alexandrovna assentando um murro na mêsa. Tem confiança, mas cumpre operar depressa! Hoje ainda façamos o principal, se for possivel.

—Está bem, mamã; escute ainda... uma franqueza. Sabe o motivo porque tanto me interessa esse seu plano? É porque não estou segura de mim propria. Disse-lhe que me achava decidida a praticar semelhante baixeza. Mas se os pormenores d'esse seu plano forem repugnantes em demasia, desde já lhe declaro que me verei obrigada a desistir. Sei que será mais uma baixeza, o resignar-me a entrar{72} no lodaçal e não ter animo de lá ficar. Mas que se lhe ha de fazer? Se não pode deixar de ser assim!