—Muito bem! Mas em que termos se lhe dirigiria o senhor? É assim que se expressa um namorado? Será essa a linguagem propria de um homem de fino trato? Offendeu-a, irritou-a.

—Como se fosse questão de fino trato, Maria Alexandrovna! Esta manhã, ambas me faziam boa cara, mas assim que eu saí e mais o principe, puzéram-me pelas ruas da amargura.—Estou sciente de tudo... tudo.

—Bebido da mesma fonte ignobil, provavelmente, observou Maria Alexandrovna com risinho de desdem. É verdade, Pavel Alexandrovitch, púl-o pelas ruas da amargura e, confesso, Deus sabe quanto me custou. Quanto não tive eu que luctar com os proprios sentimentos! Mas bastará o facto de eu me ver na necessidade de o calumniar para lhe provar a difficuldade que eu encontraria em obter d'ella que desistisse do senhor! É possivel que não veja um palmo adeante do nariz? Se ella lhe não tivesse amor, eu teria alguma necessidade de appellar para calumnias? E ainda o senhor não sabe o melhor! Tive que valer-me da minha maternal auctoridade para lh'o arrancar a ella do coração! Em conclusão, depois de esforços inauditos, consegui alcançar uns arremedos de consentimento... E visto que esteve á escuta, não deixaria de notar que ella não me ajudou em presença do principe com uma palavra, sequer, ou com um gesto. Cantou para alli como um automato; em visiveis afflições toda ella, e foi por ter dó d'ella, que eu carreguei com o principe. Tenho a certeza, até, de que se pôz a chorar, assim que se apanhou sósinha.{107} O senhor bem viu, quando entrou... Mozgliakov recorda-se de que effectivamente a Zina estava a chorar quando elle entrou.

—Mas a senhora, a senhora, por que é que está assim tão contra mim, Maria Alexandrovna? Por que é que me foi calumniar segundo é a propria a affirmál-o.

—Ora, isso agora é outro negocio; e se o senhor m'o tivesse perguntado em termos logo ao principio, ha muito tempo que lhe teria dado resposta. Sim, tem razão, fui eu que fiz tudo, eu, sósinha: não esteja a accusar a Zina. Por que foi que o fiz? E eu respondo-lhe: primeiramente, por interesse da Zina. O principe é rico, representante de nobilississima casa, tem relações, e casando com elle a Zina faz um optimo casamento. Emfim, se elle morrer, o que não poderá tardar muito, pois todos nós, mais ou menos, somos mortaes,—n'esse caso, a Zina, nova e viuva, pertencendo á alta sociedade, fica riquissima e casa com quem quizer. Ora, está claro que irá casar com o homem a quem ama, e que foi o primeiro a quem teve amor, e cujo coração terá martirizado casando com o principe. E bastará o arrependimento... O acto que terá mais a peito será o de remediar a propria falta.

—Hum! rosna Mozgliakov pensativo, a contemplar os bicos das botas.

—Em segundo logar... mas serei breve a semelhante respeito, é possivel que me não comprehendesse. O senhor só o que sabe é ler o tal seu Shakspeare, fonte aonde exclusivamente vae beber os seus nobres sentimentos; e d'ahi, o senhor está tão moço! Eu, comtudo, sou mãe, Pavel Alexandrovitch. Caso a Zina com o principe um tanto por{108} causa d'elle tambem, visto que para elle o casamento pode representar a salvação! Ha tanto tempo que voto amizade áquelle honradissimo ancião, tão bondoso, cavalheiresco! Quero arrancál-o ás garras d'aquella infernal creatura que ha de pregar com elle na cova!... Invoco a Deus por testemunha em como foi patenteando á Zina todo o alcance do heroismo da sua dedicação que eu pude convencêl-a.

Arrastou-a o irresistivel prestigio da abnegação. Ella propria tem o que quer que seja de cavalheiresco. Submetti-lhe o meu projecto sob colôr de um acto christão. Vaes ser, lhe disse eu, o amparo, a consolação, a amiga, a filha, a beldade, o idolo de um homem que talvez que nem um anno tenha de vida. Mas sequer ao menos, extinguir-se-ha no dôce calôr do amor. Estes seus ultimos dias parecer-lhe-hão um paraiso. Onde é que vê n'isto egoismo, Pavel? Não! e não! É um acto de irmã de caridade.

—A senhora, então, procede desse modo, por amizade para com o principe... á laia de irmã de caridade? commenta o ironico Mozgliakov.

—Comprehendo essa sua pergunta, Pavel Alexandrovitch, é clarissima. Suppõe que estou fazendo uma confusão jesuitica dos interesses do principe com os meus. Pois bem, é possivel que me tivesse atravessado pela mente semelhante calculo, inconscientemente, porém, e sem resquicios de jesuitismo. Espanta-o esta minha franqueza? Peço-lhe apenas uma mercê, Pavel Alexandrovitch: não involva a Zina n'este negocio! Está pura que nem uma pomba. Não calcula; sabe apenas amar, pobre pequena! Se houve alguem que calculasse, esse alguem fui eu, e só eu! Indague, porém, sinceramente da sua consciencia e diga-me{109} quem seria que no meu logar não haveria calculado? Calculamos os nossos interesses, as nossas mais generosas acções, até, sem darmos por isso, instinctivamente. Pois; se enganam, quantos alarmam que procedem movidos por pura nobreza de alma. Eu, porém, não quero enganál-o. Confesso que calculei. Mas, sempre quero que me diga, seria levando em vista o meu interesse pessoal? A mim, Pavel Alexandrovitch, que mais me será preciso? Vivi o meu seculo[[12]], calculei para bem d'ella, do meu anjo, da minha filha: e qual será a mãe que m'o lance em rosto?