—Escutei, sim! E por que não? Nem que eu fôra um asno!... Se quer ao menos fiquei sabendo o que andava a maquinar contra mim, responde Mozgliakov, haurindo valôr da propria colera.
—E resolver-se a senhora, com a sua educação, as suas maneiras, a representar semelhante papel! Santo Deus! Mozgliakov está aos pulos na cadeira.
—Maria Alexandrovna, não posso ouvir-lhe uma palavra{105} mais! Melhor será que se lembre do que está fazendo, a despeito da sua educação e das suas maneiras, e diga-me se lhe assiste o direito de accusar a outrem!
—Ainda uma pergunta, prosegue ella sem responder. Quem foi que lhe suggeriu a ideia de escutar á porta? Quem será que anda por aqui a espiar-me os passos? É isso o que eu não se me dava de saber!
—Lá quanto a isso, tenha paciencia, não serei eu quem lh'o diga.
—Muito bem, eu tratarei de o saber... Dizia eu, pois, Pavel, que não deixo de ter culpas para com o senhor, mas, se é que póde julgar-me com conhecimento de causa, verá que se tenho alguma culpa é a de lhe querer bem em demasia.
—Com que então, quer-me bem?—Esta a caçoar commigo, e certifico-lhe que não torna a enganar-me; serei muito creança mas nunca até esse ponto!
E elle, n'um sarilho na poltrona, e a poltrona a tremer.
—Por quem é, meu amigo, socegue se é possivel, escute com attenção, e verá que ha de concordar commigo. Eu, a principio, tencionava contar-lhe tudo, pôl-o em dia com tudo sem que se lhe tornasse necessario aviltar-se ao ponto de escutar ás portas. Se o não fiz, foi unicamente porque o negocio se achava ainda em estado de projecto e podia mallograr-se. Bem vê a franqueza de que uso para com o senhor. E, acima de tudo mais, não se volte contra minha filha, que de nada tem culpa. É doida pelo senhor, e custou-me os olhos da cara arrancar-lh'a ao senhor e persuadil-a a acceitar o offerecimento do principe.
—E eu, que com os meus proprios ouvidos, ouvi,—n'este{106} instante, provas d'esse tal louco affecto, replica ironico Mozgliakov.