—Que tem, meu amigo? diz estendendo-lhe a mão, cordial.

—Como meu amigo! exclama o outro furibundo. E depois de tudo isto; meu amigo! Morgen Früh[[11]], minha senhora. Metteu-se-lhe então em cabeça embaçar-me outra vez?

—Sinto, devéras, acredite, sinto immenso vêl-o em um estado de espirito tão estranho, Pavel Alexandrovitch. Que linguagem! Nem sequer méde as palavras em presença de uma senhora!

—Em presença de uma senhora!... Será quanto quiser... menos uma senhora.

(Ignoro o que é que elle queria dizer, mas, com certeza, devia de ser um qualquer ultrage, de esmagar.) Maria{104} Alexandrovna com os olhos n'elle e um risinho de commiseração:

—Sente-se, diz, com tristeza, apontando para a cadeira na qual, um quarto de hora antes, estivéra sentado o principe.

—Mas no fim de contas, não me dirá, Maria Alexandrovna?... exclama Mozgliakov, desnorteado. Está-me tratando como se a senhora estivesse innocente e fosse eu o culpado! Não pode ser!... Vae muito além dos limites! É abusar da paciencia... de todo... digo-lh'isto!

—Meu amigo... responde Maria Alexandrovna—e deixe-me dar-lhe ainda este titulo, pois neste mundo não terá melhor amiga...—o senhor está afflicto, excitado, ferido no coração, e devo pois relevar-lhe semelhantes desmandos de linguagem. Pois bem, vou abrir-me com o senhor. Tanto mais que eu, até certo ponto, não deixo de ter culpas para com o senhor. Sente-se, pois, e conversemos. A voz de Maria Alexandrovna assumiu o auge da meiguice, é compungida a sua expressão phisionomica.

Senta-se Mozgliakov.

—Esteve escutando á porta, diz ella com uns modos de exprobação e de indulgencia, ao mesmo tempo.