—Com que direito!... Eu!? E ainda m'o pergunta!? Intenta casar com o principe... e a mim não me assiste o direito...!... Pois não me deu a sua palavra?

—Quando?

—Quando, essa é melhor!

—Esta manhã, sem irmos mais longe, o senhor a apertar{102} commigo e a minha resposta formal foi que nada lhe podia afirmar de positivo.

—Mas não me rejeitou em absoluto, e por conseguinte, guardava-me para o não chega—poupava-me!...

Contrahiu-se o semblante á Zina com dolorosa sensação, mas não se atenua o desprezo que sente para comsigo.

—Se o não escorraçei, responde em voz grave e compassada, mas algo trémula, foi unicamente por compaixão. Supplicava-me que esperasse, que lhe não dissesse que não. "Vá aprendendo a conhecer-me"—disse o senhor um dia, "e quando se houver convencido de que sou um homem de caracter digno, é possivel que me não rejeite." Foram estas as suas palavras, no principio das nossas relações, não as poderá renegar: E agora atreve-se a dizer, que o guardo para o não chega! Pois não percebeu, esta manhã, o meu aborrecimento por ver como antecipava de quinze dias o seu regresso? E todavia, não lhe encobri esse meu enfado, e o senhor foi o proprio a notál-o, visto que me perguntou se me não agastava este seu regresso permaturo. Chama então poupar um homem o não lhe poder encobrir o fastio que alguem experimenta em ver esse homem? Ah! Eu então guardava-o para o não chega!? Não! eu dizia commigo, a seu respeito: "Se não é demasiado intelligente, é bondoso, quando menos"... agora, comtudo, fiquei sabendo—a tempo, felizmente—que tem tanto de mau como de tolo, e só o que me resta é desejar-lhe boa jornada! Adeus!

A Zina volta-lhe as costas e caminha, de seu vagar, para a porta. Mozgliakov comprehende que tudo está perdido; referve-lhe a raiva.{103}

—Ah! com que, eu, então, sou tolo! vociféra; tolo!—Muito bem! Adeus! Mas, antes de me ir embora, saiba que a toda a gente ha de constar a infame comédia que aqui estão representando... tanto a senhora como sua mãe. Vou contar tudo a toda a gente, que embebedam o principe, que o subornam! Ha de ouvir falar de Mozgliakov!

Estremece a Zina, vae para reponder, mas, volvido um instante de reflexão, encolhe os hombros, desdenhosa, e bate-lhe com a porta na cara. N'este conflicto, assoma aos hombraes Maria Alexandrovna. Ouviu as ultimas exclamações de Mozgliakov e adivinhou o restante. O Mozgliakov sem, se ir ainda embora! O Mozgliakov á ilharga do principe! O caso espalhado por toda a cidade pelo Mozgliakov! E todavia, é indispensável guardar segredo... Maria Alexandrovna, n'um relance, tudo calculou, a tudo preveniu, e urde um plano para aplacar o Mozgliakov.