—Hum!
—Ai! Estou toda eu em suores frios por causa d'este estafermo! murmura Maria Alexandrovna. Não ha mais que ver, acho que fez uma jura em como me havia de murchar de todas as minhas flores! Teria sido muito melhor o prescindir delle.
A raciocinar por esta forma, Maria Alexandrovna tudo é olhar pela vidraça do trem e atiçar o cocheiro. Voam os cavallos, e ella a achar que se não mexem. Aphanassi Matveich, alapardado a um canto, a repetir mentalmente a{128} lição. Até que emfim a carruagem alcança a casa de Maria Alexandrovna! Mas ainda bem a nossa heroina não tinha posto pé no patim, eis que vê passar ao lado do seu proprio trem um trenél coberto, de dois assentos, o trenél da Anna Nikolaievna Antipova.—Vinham n'elle duas senhoras. Uma dellas é a propria Anna Nikolaievna Antipova, a outra a Natalia Dmitrievna, duas amigas sinceras e recentes. Maria Alexandrovna olha para ellas, e o coração dá-lhe um báque. Ainda bem não abrira a bocca para exclamar, eis que chega outra carruagem, com outra visitante. Ouvem-se alegres exclamações.
—Maria Alexandrovna com o Aphanassi Matveich... ambos no mesmo trem! Feliz coincidencia! E nós que vinhamos passar a noite em sua casa! Agradabilissima surpreza!
As visitantes galgam a escada a pipilarem que nem andorinhas, Maria Alexandrovna contempla-as, estupefacta.
—E não vos tragar o chão! diz, lá comsigo; cheira-me isto a conluio... Pois sim!... vocês o que não tem é unhas para luctar commigo, minhas amiguinhas!... Esperem um nadinha!... {129}
XI
Mozgliakov saíu de casa de Maria Alexandrovna, consoladissimo. Não foi a casa do Borodoniev, pois necessitava de estar sósinho. Sentia a cabeça atravancada de romanescos devaneios. Phantaziava a explicação solemne com a Zina, o generoso perdão, scena melancolica no baile, lá em Petersburgo; Hespanha, o Guadalquivir, o principe no leito da agonia a juntar nas proprias mãos as mãos dos dois amantes, e em conclusão, o amor d'uma mulher tão formosa, vencido por tanto heroismo; por aqui e por acolá, um ou outro favor de alguma baronêsa, ou condessa de alto cothurno, n'aquella sociedade onde semelhante casamento lhe daria certamente ingresso, um logar de vice-governador, dinheiro; n'uma palavra, toda a eloquente descripção de Maria Alexandrovna. Mas, emfim, como explicál-o?—Através de todos aquelles arrebatamentos eis lhe surge o seguinte pensamento, algo desagradavel, que, em todo o caso, tudo aquillo estava ainda em vêl-o-hemos, e no momento actual, elle, com o que ficara, fôra com um nariz de palmo! De subito, nota que se alargou demais pelo arrabalde menos central de Mordassov. Vem caíndo a noite. Pelas ruas, ladeadas de pardieiros, ladram, como aliás succede em toda e qualquer cidade provincial, aquelles innumeros cães que infestam de preferencia os bairros em que nada ha que guardar ou que roubar. Derrete-se a neve. De vez em quando, topa-se com algum mestchanine retardado,{130} ou com qualquer baba[[14]] enfunicada n'uma tulupa e a arrastar umas botifarras. Tudo aquillo principiava a irritar a Pavel Alexandrovitch: mau signal, visto como, quando uma pessoa está contente, a tudo acha risonho. Pavel Alexandrovitch lembra-se com despeito de que, até aquelle dia, era elle quem dava o tom em Mordassov. Era recebido por toda a parte como um noivo, uma situação tão interessante, e felicitavam-n'o, e elle todo desvanecido. E eis que, de subito, vinha a constar que se achava reformado; rir-se-hiam á sua custa por toda a parte. E com tudo isso não é exequivel estar a iniciar toda a gente ao segredo do tal baile de Petersburgo, da columna melancolica e do Guadalquivir!
Triste e pensativo, acaba por formular este pensamento que secretamente lhe faz sangrar o coração desde alguns instantes: "Mas tudo isto será verdade, realmente? Virá tudo a acontecer conforme m'o pintou Maria Alexandrovna?" Occorre-lhe, n'aquelle ensejo, exactamente, que Maria Alexandrovna é mulher arteira quanto possivel; que, apezar da estima geral que disfructa, é uma enredadeira de respeito, que mente com o maximo desplante, que é possivel que tivesse motivos particulares para o afastar; que, emfim, o descrever um quadro seductor não compromete a coisa nenhuma. Pensa na Zina, revóca aquelle seu olhar de despedida tão pouco compativel com um desatinado amor. Lembra-se de que uma hora antes foi tratado por ella na qualidade de asno—sem tirar nem pôr. Ante uma{131} tal recordação, Pavel Alexandrovitch estaca de vez, como que pregado ao chão, e ruboriza-se a ponto de lhe virem as lagrimas aos olhos. E como que de proposito, d'ali a instantes, acontece um desagradavel incidente: escorrega e estatéla-se num montão de neve... Emquanto elle escabuja e patinha, um bando de canzoada, que vinham atrás d'elle a ladrar, accodem por todos os lados; um d'elles, o mais pequeno e mais atrevido, aferra-se-lhe á aba da chuba. Pavel Alexandrovitch desenvencilha-se dando ao diabo a cainçada e o destino e, com a aba do casacão esfarrapada e uma indefinivel tristeza na alma, lá se vae arrastando até á esquina da rua. Ali, percebe que vae perdido.
É sabido que um homem, quando se acha perdido em um bairro que lhe é extranho, e muito mais de noite, nunca se resolve a meter a direito por uma rua larga. Impelle-o, mau grado seu, um poder misterioso para toda a casta de betesgas que topa a geito. Em harmonia com este sistema, Pavel Alexandrovitch perde-se de todo. "Diabos levem tanta chiméra!" exclama e cospe com engulho. "Leve o diabo os sentimentos elevados e o tal Guadalquivir!"