Serve-se o chá. Sentam-se todas á mêsa. Apodera-se do piano um grupo, Zina, ao convite de tocar ou de cantar, responde, muito sêca, que se acha incommodada. A pallidez do rosto abona-lhe aliás a veracidade. Segue-se um tiroteio de perguntas simpáticas, e isso mesmo dá motivo para uma allusão.

Indagam noticias á cêrca de Mozgliakov, é á Zina que são dirigidas. Maria Alexandrovna não tem mãos de medir: acha-se presente a um tempo em cada canto da sala, ouve tudo que dizem as visitantes, supposto sejam mais de dez. Responde a quanta pergunta lhe dirigem sem ter necessidade de remexer as algibeiras á procura de palavras. Está toda ella a tremer com o sentido na Zina, e muito admirada por esta não sair da sala, conforme é seu costume em taes occasiões. Notam tambem a presença de Aphanassi Matveich. Por via de regra fazem escarneo d'elle para melindrarem Maria Alexandrovna na pessoa do marido. Hoje, porém, tudo é quererem sacar as palavras do bucho ao tão singelo e franco Aphanassi Matveich. Maria Alexandrovna, inquieta, não tira os olhos do marido, collocado em estado de sitio.

Elle, responde a todas as perguntas: Hum! com uns modos tão entalados e pouco naturaes que é de uma pessoa se derramar.

—Maria Alexandrovna, não ha quem saque uma palavra a Aphanassi Matveich! exclama uma caçapa de uma dama com uns olhos vivos e uns ares de intrepidez, como quem não tem medo seja de quem fôr, e se não atrapalha com coisa nenhuma. Veja se lhe diz que seja mais delicado com as senhoras.{145}

—Ainda estou para saber o que é que elle terá hoje, responde Maria Alexandrovna, toda ella sorrisos e interrompendo a sua palestra com a Anna Nikolaievna e com a Natalia Dmitrievna. Não está nada expansivo; aqui estou eu que ainda não fui capaz de lhe ouvir uma palavra. Por que é que não respondes á Felissata Mikhailovna, Athanasio?—Que foi que lhe perguntou, Felissata Mikhailovna?

—Mas... mas... minha mãezinha... tu não me recommend... encéta Aphanassi Matveich assarapantado, desnorteado.

N'este ensejo, está espécado ao pé do fogão acêso, com o dedo pollegar enfiado no bolso do collete, em atitude pinturesca e a chuchurrebiar o seu cházinho.

Atrapalham-n'o as perguntas das senhoras, põe-se córado qual candida donzella. Porém, ainda bem não encetara a propria justificação, eis que topa com uns olhos tão irritados da consorte furibunda que fica petreficado de terror. Sem saber o que ha-de fazer e desejoso de remediar a asneira, e reconquistar a estima de Maria Alexandrovna, engole um golo de chá, mas o chá está a ferver, Aphanassi Matveich escalda-se, engasga-se, toma-se de um froixo de tosse, e pisga-se da sala para o quarto, deixando banzada toda a assembleia. Perceberam tudo, e Maria Alexandrovna nem põe em duvida o estarem cabalmente informadas as suas visitas, e o haverem-se congregado em sua casa com intuito malevolo.

É perigosa a situação. Podem muito bem obrigál-o a descoser-se, enredál-o na propria presença da mulher. São capazes, até, de carregar com o principe e de o malquistar{146} com Maria Alexandrovna... Em summa, cumpre contar com o peor.

A sorte reserva á nossa heroina ainda outra prova. Abre-se a porta, e dá entrada o Mozgliakov, a quem ella suppunha em casa de Borodoniev. A previdente senhora estremece como se o que quer que fosse lhe houvera trespassado o coração. Mozgliakov pára nos umbraes da porta, um tanto intimidado, e põe-se a examinar a assembleia. Não consegue dominar o sobresalto a ler-se-lhe no semblante.