—Não te calarás por uma vez! desgraçada! vocifera Maria Alexandrovna.
—Minha—menina,—minha... menina... minha... en... en... cantadora... murmura o principe, pasmado.
O caracter soberbo, fogoso e mistico da Zina leva-a a transpôr quaesquer limites. Esquece-se dos transes por que estará passando a mãe ante esta publica confissão; só vê a salvação, a redempção na franqueza, e vae até ao fim.
—Enganámol-o, sim, uma e outra, principe; a mamã resolvendo-me a aceitar a sua mão, e eu em consentir. Embriagámo-nos, eu, puz-me a cantar e a fazer tregeitos na sua presença com sentido em o saquear, conforme se expressou ha pouco Pavel Alexandrovitch, para lhe roubar a sua fortuna e o seu titulo. Era ignobil! E peço-lhe perdão! E comtudo, juro-lhe, principe... que a minha intenção... O que eu queria era... mas é duplicar a injuria o estar a procurar desculpas. E todavia, declaro-lhe, principe, que se eu tivera casado com o senhor, se eu o houvesse saqueado e roubado, em compensação, haver-me-hia tornado o seu brinquedo, a sua criada, sua escrava... A{173} mim propria m'o havia prometido, e cumpriria o meu juramento...
Veiu interrompêl-a um deliquio, as visitantes estão de pé, todas ellas, com os olhos esgazeados. A tão imprevista quanto incomprehensivel expansão (para ellas) da Zina desorientou-as. O principe, tão sómente, tem os olhos arrazados de lagrimas, de commovido, supposto não perceba metade sequer do que ella tem dito.
—Mas... es... tá... claro... que hei de casar com a menina... com a minha... l... linda menina, visto que tanto o... o deseja. E isso para mim re... representa... até, subida hon... ra... Mas, não deixarei... de insistir em que foi sonho!... Vejo tan... ta coisa, a so... sonhar! Por que é que se hão-de estar a inquietar? Eu não percebi coisa nenhuma, meu amigo, prosegue dirigindo-se a Mozgliakov; explica-m'o, se fazes favor!
—E o senhor, Pavel Alexandrovitch, que se vingou de mim de modo tão cruel, como é que pôde combinar-se com semelhante gente para me esfacelar desacreditando-me? Allegava amar-me!... Mas para que estarei eu para aqui a prégar-lhe moral!... Sou mais culpada que o senhor, offendi-o; tambem para com o senhor me vali de hyprocrisia, de mentira! Nunca lhe tive amor, e se eu um dia me resolvesse a desposál-o, seria unicamente para me ver livre d'esta maldita cidade... Mas declaro-lhe, que se tal houvesse succedido, teria em mim uma esposa fiel e carinhosa.
—Zinaida Aphanassiévna!
—E se ainda me conserva rancor...
—Zinaida Aphanassiévna!!{174}