Na capella á direita a Sacra Familia, Anjos coroando: fundos claros, edificio do renascimento em ruina. Detalhes minuciosos.

O trabalho d’esculptura em madeira dourada que reveste a grande parede da capella-mór faz bom effeito; é desegual, talvez em parte material aproveitado para encher o vão. Mas o sacrario é uma peça de grande elegancia; renascença classica de cuidadosa execução.

Na capella esquerda do cruzeiro está um quadro notabilissimo. S. Bento dá a regra aos seus monges. No primeiro plano á esquerda el-rei D. Manuel, á direita a infanta D. Maria. Um fidalgo e diversos monges formam grupo atraz da figura do rei, uma dama e muitas freiras estão depois da infanta. Todas as figuras estendem o braço direito, a palma da mão para cima como signal de acceitação da regra. O pintor para evitar monotonia variou muito as posições dos dedos; foi um verdadeiro esforço, um trabalho habilidoso e paciente o desenho de tantas mãos; a mão fina e lisa das damas novas, a nodosa e enrugada das velhas, a robusta e a gorducha dos fortes monges. D. Manuel tem o collar de Christo. A infanta veste com fausto; vestido de tissu lavrado, apertado na frente com laços de fitas com agulhetas; joias com pedras preciosas, gorgeira de fina renda, gola muito alta, collar com fita pendente de ouro e pedras. O lindo rosto juvenil da dama de côrte, vestida mais modestamente, pintado n’um tom menos brilhante, succede muito bem á magestosa grande dama, e prepara para o aspecto ascetico do grupo de freiras. Tanto estas como os frades teem phisionomias estudadas; são retratos. Por isto este painel tem o duplo valor de obra d’arte, e de documento historico, dando-nos ainda preciosos elementos de indumentaria. Ha outros retratos da infanta; e o busto de prata que se conserva em Santa Engracia (antiga egreja dos Barbadinhos) harmonisa com este em aspecto e vestuario.

As grades da capella-mór e das outras capellas são em pau santo com torcidos.

No cruzeiro á direita fica outro altar. É a capella do Senhor dos Afflictos; é a imagem de Jesus Crucificado, esculptura em madeira de boa execução, corpo robusto com anatomia estudada. Sob a imagem, n’um friso, ha duas taboas pintadas que merecem attenção. Em uma Santo Antonio e S. João Baptista; na outra as santas Agueda e Luzia, com os seus emblemas. São pinturas talvez do começo do seculo XVI alli applicadas.

No cruzeiro, á direita, uma porta singela dá para uma pequenina capella, agora sem culto; construcção do começo do seculo XVII. Tem rodapé de azulejos, altar e chão de boa pedra. Está aqui um tumulo com escudo de armas sem lettreiro; outro com brazão e a seguinte legenda:

—Aqui está sepultado o religiosiss.ᵒ varão da ordem de Chr.ᵒ D. F. Martinho de Ulhoa bispo que foi de S. Thomé, Congo e Angola juntamente que mandou fazer esta capella em a qual se lhe diz missa quotidiana falleceo a 8 d’agosto de 1606.—

Guarda-se na sacristia (antigo côro) um grande retabulo que servia de tapar o vão do arco da capella-mór. Representa o milagre de Nossa Senhora a Pedro Martins. É fraca pintura. Está assignado e datado: Anno de 1714. Henrique Ferreira fez.

Sobre o altar da sacristia está a imagem de Nossa Senhora dos Remedios.

É esculpida em madeira, e por nesta ter dado o caruncho a vestiram de seda para occultar as lesões. Merece toda a attenção. É pintada e dourada; luxuoso vestido rodado de mangas perdidas, fita de joias em relevo com imitação de pedras finas. No vestido o artista imitou rico tissu floreado.