O sr. Paulo Choffat tem trabalhos publicados sobre os ultimos abalos de terra sentidos na capital.

É certo que Lisboa está n’uma zona perigosa; devemos reparar n’isto. Nada de concentrar tudo em Lisboa, guardem-se algumas cousas em sitios mais garantidos.

E todavia ha aqui consideraveis construcções que atravessaram no seu logar e prumo essas medonhas convulsões; por exemplo uma parte consideravel das muralhas do Castello, Santa Luzia e a sua muralha, as capellas orientaes do Carmo, os arcos do Borratem, a casa dos Bicos, a frontaria da Conceição Velha; bastantes edificios anteriores ao abalo de 1755 estão de pé; alguns palacios aguentaram as suas linhas, e o labyrintho das viellas de Alfama conserva a planta medieval.

Mas basta olhar as paredes mais antigas do Carmo e da Sé para perceber pedras de anteriores construcções, fragmentos de lettreiros e lavores, empregados na enxilharia ordinaria. Na vetusta parede norte da Sé ha pedras mettidas no muro que mostram lavor bysantino. No Carmo bocados de campas com lettreiros em gothico, em diversos pontos do edificio, estão empregados como pedra vulgar de construcção. É raro encontrar nos arrabaldes de Lisboa pedras de antigo lavor, da idade média, do ogival, mesmo da primeira renascença no seu logar; Odivellas é uma excepção, assim como o casal da Quintan com o seu muro de ameias. É preciso ir a Cintra, a Torres Vedras, a Santarem para vêr algo antigo de certa importancia.

Na ultima folha de pergaminho do codice n.ᵒ 61 da collecção alcobacense da Bibliotheca Nacional de Lisboa um monge deixou noticia do grande abalo de 24 de agosto da era de Cesar 1394 (1356); fez grandes estragos prostrando castellos e torres em muitos pontos do paiz; em Alcobaça a egreja soffreu muito, no mosteiro houve ruinas, e cahiram muralhas do castello. Foi ao pôr do sol.

Outro monge na mesma pagina escreveu a memoria do terremoto de janeiro de 1531; por mais de 15 dias sentiram tremer a terra; mas no dia 26, antes do nascer do sol, foi o grande tremor; conta que em Lisboa houve grande estrago; no mosteiro houve muita ruina, não escapando a parte superior do claustro.


O abalo de terra de 1755 foi violentissimo, mas escriptores e artistas ainda lhe augmentam as culpas. Este terremoto e a invasão dos francezes são motivos fundamentaes para explicar o desapparecimento de muita cousa, uma rica mina para encobrir o desleixo, a estupidez, a mania de estragar que é muito da raça portugueza.

No tomo 3.ᵒ da==Collecçam Universal de todas as obras que tem sahido ao publico sobre os effeitos que cauzou o terramoto nos reinos de Portugal e Castella no primeiro de novembro de 1755 (Bibl. Nac. de Lisboa, Gabinete de livros reservados), ha alguns opusculos de polemica sobre a grandeza da tremenda catastrophe: ==Carta em que hum amigo dá noticia a outro do lamentavel successo de Lisboa==Está assignada por José de Oliveira Trovão e Sousa (1755).

==Resposta á carta de José de Oliveira Trovam e Sousa em que se dá noticia do lamentavel sucesso de Lisboa. É de 1756; assignada por Antonio dos Remedios.