==Verdade vindicada ou resposta a huma carta escrita de Coimbra. Por José Acursio de Tavares (Lisboa, 1756). De taes escriptos conclue-se que o terremoto destruiu bem a terça parte de Lisboa e que o incendio que se lhe seguiu foi terrivelmente devastador; mas fóra da area de grande intensidade do abalo, e além do espaço que o fogo alcançou, muitos predios, bastantes palacios, grandes arruamentos ficaram salvos; agora é bem raro encontrar uma frontaria, uma janella, uma grade de varanda anterior ao terremoto. No final do seculo XVIII e no seculo XIX a transformação foi completa; basta a vulgarisação da vidraça e o desapparecimento da rotula para modificar o aspecto da cidade. Em povoações onde o terremoto não foi tão destruidor, apenas se sentiu, a transformação foi analoga. É que na verdade o portuguez é bem fraco conservador. Aqui pelos arrabaldes de Lisboa direi mesmo que é destruidor. Por isto eu dou toda a attenção ao que me parece antigo, me demoro com o anterior ao seculo XVIII, e quasi pasmo quando me surge um fragmento do seculo XVI.

Folheando qualquer Illustração estrangeira se vê o carinho, o amor com que em paizes muito mais atormentados que o nosso se guardam antigos edificios, casas particulares de aspecto artistico, objectos de uso vulgar consagrados pela idade, qualquer cousa que seja documento do antigo viver. Os terremotos são damninhos, mas a indifferença, o desleixo, a ignorancia são grandes causas de destruição.


Este caminho entre varzeas ferteis, arvoredos mansos, collinas de grandes curvas com terras de semeadura e verdes pinhaes, por onde vamos encontrando gente do campo, scenas da vida popular, é a via tragica na historia de Portugal, brados de victoria e rumores de desespero, marchas de tropas em dias de lucta, por aqui passaram entre estas paisagens que só lembram agora frescas aguarellas; patuleias e cartistas; miguelistas e pedristas, columnas de Junot e de Wellington; castelhanos que vieram cercar Lisboa, portuguezes voltando de Aljubarrota; e provavelmente cavalleiros de Affonso Henriques, e dos mouros, dos godos e dos romanos; porque é esta a estrada que leva a Lisboa, a antiga e nobre cidade, o grande porto maritimo.

Na ida para o Correio-Mór, perto da Povoa de Santo Adrião, reparei em certa pedra lavrada de aspecto raro; na volta parei e fui vê-la; é

Uma ara romana.

Ha um poço coberto, encravado no muro, a poucos metros da estrada; sobre um pequeno arco um nicho com a imagem de S. Pedro; perto um poial, alto, e no chão uma pedra lavrada, com funda cavidade. É um parallelepipedo de oito decimetros de comprido, por tres de altura, proximamente, de pedra vidraço; um cordão de forte relevo divide os lados em duas fachas; na superior um lavor geometrico, curvas em grega torneando saliencias circulares; na facha inferior quatro rosas entre curvas symetricas. Creio que é uma ara romana. Salvou-se junto da fonte d’agua com virtude, guardada pela tradição. Por aquelles sitios teem apparecido antiguidades romanas, ainda que são muito menos numerosas as inscripções que nos arredores de Cintra. Como esta pedra lavrada atravessou intacta tantos seculos, n’este paiz de estragados!


—Versos novos?!

—Umas liras! diga já, frei Simão!