Estavam no jardim, na meia laranja da cascata, á sombra do platano alteroso. Linda manhã de junho. Era o dia anniversario da senhora morgada; visitas de Lisboa animavam o palacio. A missa tinha sido ás 7, e o almoço terminára ás 9. Alguns dos senhores partiram para a tapada, outros para o picadeiro vêr os dois cavallos novos que o conde trouxera de Sevilha.
O apparecimento de frei Simão, frade jeronymo, que viera de Belem em ruidosa e balouçante caleça, foi saudado com alvoroço; o frade tinha sempre a contar anecdotas facetas, algumas muito repetidas mas que elle contava com certa graça, e noticias da gente palaciana, sempre saboreadas com delicia.
Frei Simão avançou devagar, até perto da morgada, muito serio, fez uma cortezia reverendissima, e recitou o soneto de parabens pelo feliz anniversario; era composição nova; vinha escripto em primorosa lettra num papel, com sua inicial floreada, enrolado e atado com fita de seda branca.
Depois deixando o tom ceremonioso, pondo-se muito risonho, annunciou os versos novos, umas sonóras, não umas liras...
—Diga, diga.
—É a segunda vez que as leio...
—E nós a julgarmos que tinhamos a primicia...
—A primeira vez só uma pessoa, alta pessoa, as ouviu. Por isto posso dizer a primicia.
—Quem seria a alta pessoa?
—Eu digo, senhora morgada; foi el-rei que Deus Guarde.