—Bravo! foi ao Paço? teve audiencia?

—Foi na rua, antes na estrada. El-rei viu-me passando pela estrada de Pedrouços; mandou parar o coche. E bradou-me:

—Então, oh! Santa Catharina, fizeste a resenha?

—Sim, meu senhor, e está em verso; ia levá-la a Vossa Real Magestade.

—Não precisas ir mais longe; dize lá.

Acheguei-me á porta do coche e li os versos. Eu já me sentia acanhado porque a lira é comprida, e o coche ali parado na estrada. Mas el-rei D. João V gosta de versos jocosos; não imaginam como elle ria.

—E como soube elle que Vossa Reverencia fizera a lira?

—Ora, foi assim. Em Belem, no nosso mosteiro, pela festa de S. Jeronymo, costuma haver lauto jantar, com convidados; ao jantar da casa, jantar de festa, juntam-se muitos presentes; enche-se o grande refeitorio; o d’este anno foi estrondoso. El-rei soube e encontrando-me ha dias em palacio, disse-me para lhe fazer a noticia dos pratos; e eu puz a lista em verso; fiz a lira!

—Diga, diga.

—Eu começo; frei Simão de Santa Catharina collocou-se em frente das damas; limpou lentamente a fronte, a bocca e o nariz com o lenço cheiroso a agua de rosas.