Monarcha Soberano
Pois Vossa Magestade assim me ordena
O jantar deshumano
Irá cantando a Musa pouco amena
E em ser só se verá que foi diverso
No refeitorio em prosa e aqui em verso.
A lira vae descrevendo o grande refeitorio, o adorno das janellas com estatuas, festões, grinaldas de flores naturaes, os aparadores carregados de pratas, o chão atapetado de flores.
Estava o refeitorio num brinco.
Em cada logar da vasta meza havia os appetites, as pequenas iguarias, com seus adornos.
Cobria o cuvilhete
um papel retalhado, com acerto
que inda que pequenete
como grande queria estar coberto.
Na marmelada vinha, guaposito
guarnecido de flores um palito.
Em cada assento havia
garfo, faca, colher e guardanapo
dois pães, com bizarria
melancia excellente, melão guapo
figos, uvas, limões, pecegos, peras
sem graça, o cesto enchiam, mui devéras.
A ilharga da salceira
um bom tassenho de presunto havia
tão magro e tão lazeira
que a mim me pareceu ser porcaria
tambem tinha azeitonas e alguem disse
que foram d’Elvas.
Estes eram os appetites que adornavam os logares dos commensaes. Agora os pratos.
Foi o primeiro prato uma tijella
cheia em demazia
de caldo de gallinha com canella
que da gallinha trouxe a propriedade
porque o caldo tinha ovo na verdade.
Foi o segundo prato
uma bem feita sopa á portuguesa
que dava de barato
O filis e o primor que ha na franceza.
Por algum grão delito
foram muitos perús esquartejados
uns vêm com sambenito
outros vinham sómente afogueados.