Faz-se alli festa religiosa em 15 d’agosto, porque parece que foi n’este dia que D. Affonso Henriques tomou a villa aos mouros, em 1148. Ainda no começo do seculo XIX, na noite do dia 14, vespera da festa, faziam grandes fogueiras no adro e por entre as ameias.

Perdeu-se a usança pittoresca, ante esta onda de semsaboria que vae estragando tudo.

Os priores d’esta egreja eram capellães d’el-rei; varias rainhas foram padroeiras e lhe fizeram donativos.

D. Beatriz, mãe de D. Diniz, residiu em seu paço, que ficava proximo. É difficil hoje achar vestigios de paços reaes, ou de quaesquer edificios muito antigos em Torres Vedras. Ahi residiram por largas temporadas reis e rainhas, por duas vezes se reuniram côrtes, no seculo XV, e quasi nada d’essa época se encontra na villa. Tem soffrido muito com os terremotos; a parte baixa está visivelmente muito soterrada; isto explica em parte o desapparecimento de antiguidades na historica e interessante villa.

Ermida e forte de S. Vicente

A ermida de S. Vicente fica a norte de Torres Vedras; cousa de tres kilometros do centro da villa ao alto da collina. Chega-se á varzea arborisada do Amial, passa-se o rio Sizandro, a ermida de Nossa Senhora do Amial, e do adro d’esta ermida parte uma vereda que vae trepando pela vertente, e dando volta, de modo que offerece vistas variadas da villa, que tem bonito aspecto, do seu vetusto castello, conjuncto de paredões, muralhas e cubellos ennegrecidos pelo tempo, e da multidão de collinas, quasi todas vestidas de vinhedos viçosos, salpicadas de casaes. O cume de S. Vicente está bastante superior ao castello, e ás collinas proximas, dominando largo terreno. Depois do corpo de S. Vicente entrar na sé de Lisboa houve milagres varios, e um dos devotos favorecidos foi um homem de Torres Vedras que lhe edificou uma ermidinha em agradecimento. É certo que no começo do seculo XIII já alli estava uma ermida; tão certo como não estar lá, á vista, um unico lavor ou lettreiro, nem do seculo XVII. Mas ha documentos; e bocados de pergaminho bem guardados duram mais que alvenarias expostas a pilhagens e bombardeamentos.

Na ermida venerava-se uma imagem de S. Vicente, agora na pequena egreja do Amial, e ha tradição de grandes festas que o povo torreense ahi celebrava. Arruinou-se, reconstruiu-se, e voltou o abandono; agora dormem alli pastores e cabras; se lá estão ainda algumas cantarias é pela difficuldade do transporte.

Termina a vereda n’uma passagem empedrada sobre um fosso, vê-se ainda bem o relevo da trincheira entre arbustos e silvados, depois a ermida toda em ruina e esburacada; a capella redonda tem uma pequena cupula de ar mourisco; junto da ermida havia casebres, casa do ermitão e albergue de romeiros; telhados cahidos, montões de entulho; silvados e carrasqueiros bravios; depois da ermida um planalto talvez de 60 metros de diametro, ahi dois moinhos de vento antigos, em ruina; em volta quatro grandes espaldares erguidos, de 2 metros de altura, por 10 de comprimento; na borda do planalto as baterias, os reductos; as canhoneiras ainda com o pavimento lageado, os perfis em alvenaria solida; reconstitue-se ainda perfeitamente a celebre fortificação.

Todos teem ouvido fallar das famosas linhas de Torres Vedras que defenderam Lisboa contra a invasão franceza do commando de Massena. A primeira linha fortificada dividia-se em tres districtos: 1.ᵒ Torres Vedras, 2.ᵒ Sobral de Monte Agraço, 3.ᵒ Alhandra.

Dois pontos estavam especialmente fortes, eram os fortes grandes, S. Vicente, e o da Serra do Arneiro.