Alguns quadros pintados em madeira, antiga escola portugueza, outros em tela, na egreja, na sacristia e na annexa casa dos clerigos pobres; algumas esculpturas religiosas, especialmente a estatueta de S. Pedro d’Alcantara, merecem attenção.
No cruzeiro, á direita, está um elegante ediculo com uma urna sepulcral.
É no mesmo estylo da porta principal. O ediculo é em pedra da localidade, que é rija, resiste bem ao tempo, e toma, no passar dos seculos, uma côr amarella torrada, agradavel á vista. A urna é em jaspe, em fino trabalho.
Sobre bases facetadas erguem-se columnas que sustentam arcos concentricos; ha uma facha muito lavrada, de folhas e flores, com um pequeno busto em baixo relevo, imitando medalha, que parece um retrato; mostra a cabeça coberta com um capacete um tanto raro. Busto egual se vê na porta da egreja.
No ediculo as columnas e arco exterior representam troncos arboreos cingidos por fitas.
A urna pousa sobre leões de inferior trabalho. Na face anterior tem o lettreiro e aos lados o brazão, repetido, dos Perestrellos.
N’esta urna estão os ossos de João Lopes Perestrello e de sua mulher Filippa Lourenço. Este homem foi fidalgo da côrte de D. João II. Foi para a India, capitão de uma nau, na armada de Vasco da Grama, em 1502. É um dos vultos d’essa notavel familia que tantos homens produziu que bem serviram o paiz em Ormuz, em Malaca. Um filho d’elle, Raphael Perestrello, andou na descoberta da costa da China, e esteve nas Moluccas. Outro filho jaz na mesma egreja de S. Pedro; sob uma campa enorme, de mais de dois metros de comprimento, com um lettreiro em gothico:—Aqui acerqua de seus quyrydos pais he mai Antonyo Perestrelo seu filho escolheo casa para sempre.—
É bom typo de familia d’aquella época; as grandes aventuras, as viagens ultramarinas; uns ficaram nos mares ou nas guerras, outros voltaram ricos, fizeram morgados, e arranjaram na egreja da sua terra uma capella para eterno descanço.
Capiteis romanicos
Na egreja de Santa Maria do Castello, em Torres Vedras, vi dois capiteis romanicos na porta principal, que olha para o poente. O templo tem soffrido reconstrucções, todavia as linhas principaes são as primitivas. Os portaes, de volta redonda, estão nos seus logares de origem. Aquella silva que orna a parte superior dos capiteis, formando um friso, repete-se aos lados da porta que diz para sul. Os capiteis são de calcareo muito rijo, trabalho ingenuo, relevo fundo; pouco teem soffrido do tempo. São decorativos e symbolicos; o esculptor quiz representar motivos do Cantico dos canticos; é o lyrio dos valles, a pomba do rochedo, a maçã entre a folhagem agreste; as comparações amaveis feitas á Sulamite, que a egreja christã adoptou. Obra d’arte, da alta edade média, é isto o que resta n’esse templo, alvejante entre oliveiras, aninhado entre as muralhas vetustas, cubélos e quadrelas negras do castello.