E mais, é claro, os que importam á vida municipal, os economico-administrativos, os que se referem a obras publicas, viação, preços de generos, etc.
Visitei tambem o archivo da Santa Casa da Misericordia.
Se entro sempre com respeito n’um archivo municipal, que é onde está o documento do homem, rico ou pobre, nobre ou plebeu, entro com veneração e amor n’um cartorio de Casa de Misericordia: alli está a vida do pobre, do enfermo, do engeitado, do encarcerado; alli está a meu vêr a instituição mais gloriosa que tem o povo portuguez. A beneficencia moderna nas suas multiplas manifestações não attinge a perfeição d’esse maravilhoso instituto que corresponde perfeitamente ás necessidades sociaes.
O livro mais antigo que vi data de 1608. Vi livros de tombos, accordos, receita e despeza, compromissos, e de enterros. Ha um Tombo grande, que é um formidavel infolio, do tempo de D. João V. Tem medições de propriedades urbanas e ruraes que o tornam precioso. N’este volume está a descripção minuciosa da egreja e Casa da Misericordia, feita em 1730. No termo de Torres havia hospitaes e albergarias na idade média, no Amial, Carvoeira, Turcifal, S. Gião, Ribaldeira, Azueira, S. Mamede e Dois Portos.
É extraordinario o que se fez em Portugal no ramo de beneficencia publica, nos primeiros seculos da monarchia. Creio que foi no seculo XVI, principalmente, que se realisou a concentração nas Misericordias de todas essas pequenas instituições, albergarias, gafarias, etc. De todas vi noticias no archivo da Misericordia.
Finalmente fui vêr, na amavel companhia do Prior, o archivo de Santa Maria do Castello. Esta notavel egreja, antiga capella real, conserva ainda o seu archivo! é caso raro em Portugal. Porque os archivos parochiaes, quasi todos, foram concentrados pelos prelados, e jazem ignorados nos Seminarios, alguns sem a minima organisação. Este lá está nas suas arcas velhinhas, conservado e limpinho, amado pelo digno parocho. Vi lá pergaminhos do seculo XIV, do bom rei D. Diniz, de 1307 um d’elles, e muitos dos seculos XV e XVI. É bem singular um archivo parochial com os seus velhos livros, amarellecidos pelo tempo, dos que nascem, dos que se casam, dos que morrem; dos que passaram n’este mundo de esperanças, de alegrias, de soffrimentos.
No Varatojo
Na sala do capitulo vi dois lettreiros:
Aqui descansão
as cinzas do Ven.ˡ
P. F. Antonio das
Chagas. Miss. Apost.
e instituidor deste
Semin.ᵒ faleceu a
20 de outubro de 1682.