Ahi se lia per illum (fr. Vicente) in hac civitate (Lisboa) et in diversis hujus regni partibus, destructa fuerunt opera diaboli et haereses erroresque, atque idolatriae. Edidit etiam varios libros excellentis doctrinae.
Barbosa Machado diz que não conseguiu vêr nenhum de taes livros. Mas sabe pelo epitaphio que elle combateu as crendices populares, as superstições viciosas, as praticas pagans observadas ainda no seu tempo pela gente rude. É tarefa antiga esta de combater tradições, bruxarias, costumeiras, que hoje fazem as delicias dos folqueloristas. Ainda não vi tambem livro que se possa attribuir a fr. Vicente de Lisboa; mas não se perde a esperança. É bem possivel que nalguma antiga collecção de sermões se contenham os do prégador de D. João 1.ᵒ Na livraria do infante D. Fernando havia um volume assim designado==Item, hum livro de pregações de frey Vicente per lingoagem. (T. Braga, Historia da Universidade de Coimbra, 1.ᵒ pag. 229).
Muitas obras que se julgavam perdidas teem surgido nos ultimos annos. Os tratados de alveitaria e citraria (este incompleto) de mestre Giraldo existem na Bibliotheca Nacional, assim como uma copia antiga do Livro de Montaria de D. João 1.ᵒ O tratado da phisionomia, Opus de physiognomia, de mestre Rolando, está na Bibliotheca da Ajuda. Nos Documentos historicos da cidade de Evora dei noticia e grandes extractos dos tratados medicos, da idade media, existentes na livraria d’aquella cidade.
O sr. Leite de Vasconcellos, o nosso grande investigador, foi descobrir em Vienna, uma versão portugueza das fabulas de Esopo, que já publicou na Revista Lusitana.
Por isto não perco a esperança de ver ainda um dia alguma obra de fr. Vicente de Lisboa.
Fr. Bartholomeu dos Martyres
Uma parte do convento que olha para norte está bastante arruinada; eram ahi os dormitorios do noviciado; as janellas das humildes cellas deitam para a cerca; a vista dilata-se por aquelles campos e collinas verdejantes de Bemfica, jardins, frescos hortejos, copados arvoredos. Uma d’essas pequeninas janellas é a do quarto que por muitos annos foi habitado por um homem dos raros, dos mais raros, que tem havido em Portugal, fr. Bartholomeu dos Martyres.
Foi aqui professor muitos annos.
Primeiramente esteve, ensinando já, no convento da Batalha.
Passou ao convento de Evora porque o infante D. Luiz, desejando fazer grande lettrado seu filho o sr. D. Antonio, depois prior do Crato, infeliz rei e exilado, instou e conseguiu que fr. Bartholomeu fosse ler theologia nos dominicanos de Evora; ahi conheceu fr. Luiz de Granada, outro raro. Permaneceu em Evora alguns annos; obrigaram-no então a vir ser prior de S. Domingos de Bemfica, que era o grande noviciado de Portugal. Vivia muito pobremente, sem a minima ostentação; amigo do Convento e mais amigo da cella; dormindo pouco, comendo pouco. Enthusiasta professor estava sempre prompto a ensinar; lia aos noviços disciplinas superiores, mas se via necessidade fazia cursos d’artes elementares, aos rapazes; fazia praticas numa capella da egreja. Era um eloquente, como fr. Luiz de Granada; e ás vezes arrastado pelo calor da palavra, enthusiasmava-se, e enthusiasmava o auditorio; uma vez terminou a pratica chorando elle e todos os ouvintes.