Gostava de passear na cerca, e estava muitas vezes á janella da sua pobre cella; os noviços ouviam-no cantarolar a meia voz, tomando o ar, encostado ao peitoril da janella que dá para o campo.

As visitas contrariavam-no um pouco, o cardeal D. Henrique, o infante D. Luiz frequentavam o convento; um dia instaram com elle para que acceitasse a mitra de Braga. Do tranquillo cantinho de S. Domingos de Bemfica para o paço archi-episcopal de Braga!

Largar o convento, as aulas, a cêrca, a sua cella tão boa para o estudo! Não queria, não queria! Foi a rainha D. Catharina que o mandou; elle então obedeceu. Foi sempre um altruista, espirito cheio de abnegação. Preparou-se para a partida, teve de deixar por algum tempo Bemfica; mas antes de partir definitivamente para Braga foi passar um dia a S. Domingos, ao querido sitio de Bemfica, foi despedir-se da egreja, das aulas, da sua tranquilla cella, das arcadas silenciosas do claustro, da fonte da horta, das arvores, das flores.

E foi para Braga, para aquellas extranhas missões das montanhas minhotas, e para as solemnes discussões do concilio de Trento.

Era por indole um professor, gostava de ensinar. Tanto que se viu livre da mitra primacial elle ahi vae para o seu retiro de Vianna do Lima, ensinar rapazes; nos seus passeios pelos campos o bom velhinho, ás vezes, assentado a repousar, doutrinava os humildes pastores. Que esta raça portugueza em tempos antigos produziu mestres em sciencias e lettras que illuminaram universidades em Hespanha, Italia e França. Merece ainda attenção este homem no ponto de vista da hygiene em geral; pelo seu regime de vida, habitos e predilecções. Usava fazer grandes passeios a pé, era sóbrio, de bom humor. Lendo hygienistas modernos, Gautier (Armand—L’alimentation et les regimes chez l’homme sain et chez les malades) por exemplo, encontram-se conselhos para a vida dos intellectuaes, que lembram logo o methodo de vida de fr. Bartholomeu dos Martyres.

D. Isabel Maria

A infanta D. Isabel Maria residiu bastantes annos na sua casa de S. Domingos de Bemfica. Velhinha, adoentada nos ultimos tempos, cheia de recordações, por alli passeava morosamente sob as magnolias e os cedros. A quinta está contigua á cerca do convento.

O palacio parece que foi construido em tempo de um certo Devisme negociante e capitalista, grande amigo do marquez de Pombal, que tambem se importava de politica, tendo altas relações no estrangeiro, ahi pelo meio do seculo XVIII. As estatuas de marmore que ornam o jardim são d’essa época, mas o desenho, a disposição foi alterada. No palacio houve mudanças e ainda nos ultimos annos foi ampliado; está installado alli o bem afamado collegio de Jesus, Maria, José; grande numero das senhoras da fina sociedade actual passou por esse estabelecimento de educação.

Depois de Devisme pertenceu a bella propriedade á casa dos marquezes de Abrantes, illustre familia. Por morte do ultimo marquez, em 1847, foi comprada pela infanta D. Isabel Maria filha de D. João VI, e de D. Carlota Joaquina. Nasceu a infanta em 4 de julho de 1801, e falleceu a 22 de abril de 1876, pelas 3 horas da tarde.

Interessante figura; vida que em grande parte decorreu entre agitações politicas e palacianas; presidente da junta de regencia, em 6 de março de 1826, ficando de parte a rainha D. Carlota, por occasião da enfermidade de D. João VI, e por morte d’este, regente em nome de D. Pedro IV, até ao celebre dia 22 de fevereiro de 1828, em que depoz o governo nas mãos de D. Miguel. Foram um horror esses tempos de paixões violentas, de conspirações politicas, que não paravam no vestibulo do paço, e até de lá partiam, pois conspiradora foi sempre a mal aventurada D. Carlota Joaquina.