A leitura do Hirschfeld, me parece, é ainda hoje util a quem deseje tratar de jardins publicos ou particulares.
Porque ha uma esthetica de jardins, e tambem merece attenção a questão economica. Em Portugal, por exemplo, não se usa da laranjeira ou da vinha em jardins; e estão os jardins cheios de palmeiras monotonas. Vê-se gastar muito dinheiro para ter bocadinhos de arrelvado, que o sol de verão cresta numa hora.
Vêmos formar talhões com uma só essencia, o que parece esthetica de hortelão, quando as alamedas ou avenidas são muito mais pittorescas e vistosas variando a qualidade das arvores.
O jardim publico de Evora tem effeitos bonitos; foi planeado e plantado pelo scenographo Cinatti, que calculou os aspectos que arbustos e arvores dariam quando desenvolvidos. Infelizmente depois não seguiram, completamente, as indicações do artista; todavia ainda é manifesto o fino criterio que presidiu á disposição do arvoredo.
Il reale giardino di Boboli nella sua pianta e nelle sue statue com o Alticchiero (Padua, 1787) é livro pouco vulgar.
Muitas estampas finamente gravadas mostram os planos, os aspectos, e principalmente as estatuas.
O jardim Boboli, em Florença, tinha amphitheatro, casino, palacetes, jardim botanico, o pequeno jardim de Madama, o dos ananazes, o da ilha, o da fortaleza, e a grande pesqueira de Neptuno. No jardim de Oeiras havia tambem pesqueira; até ahi pescou á canna a rainha D. Maria I, na famosa visita que lá fez, no tempo do segundo marquez de Pombal.
Neste jardim Fronteira as tropas miguelistas em 1833 entraram sanhosas, todavia parece que o estrago não foi consideravel. Diz-se tambem que se tratou aqui da formação da Arcadia Lusitana, que os tres poetas Antonio Diniz da Cruz e Silva, Theotonio Gomes de Carvalho, e Manoel Nicolau Esteves Negrão por estes caramachões de rosas e jasmins discutiram as bases da famosa academia litteraria. O snr. Theophilo Braga (pag. 180 de A Arcadia Lusitana) conta que os tres poetas se reuniam em Bemfica; mas ha tradição de que era na quinta dos Fronteiras que elles frequentavam, e de que mesmo um d’elles perto morava.
José Maria da Costa e Silva, no seu poema O Passeio, diz que em Portugal se chamavam jardins de D. João de Castro, aos irregulares, por ter sido o famoso heroe o primeiro que os plantou na Europa:
Vêde Castro, o terror dos reis do Oriente
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E o primeiro mostrar d’Europa ás gentes
Dos chinezes jardins a variedade.