Em Portugal ha bonitos jardins modernos e ainda alguns antigos conservando os seus engenhosos desenhos; a invasão moderna de plantas exoticas prejudica bastante o jardim antigo, araucarias e chamerops não harmonisam bem nas combinações geometricas e symetricas, não podem substituir as cevadilhas, as balaustras, de pequeno porte, de brilhante folhagem e vistosa florescencia. Uma alta araucaria pyramidal destoa nos bordados jardins de Caxias e Queluz. Arvores variadas, exoticas ou naturaes, empregavam-se em fazer parede ou moldura de jardins, em alamedas de horta ou laranjal.

No Diccionario dos Architectos, vasto trabalho do sr. Sousa Viterbo, por vezes apparecem architectos encarregados de obras em jardins, o que não admira porque todos os jardins antigos tinham obras d’arte importantes, terraços, escadarias, balaustradas, cascatas enormes e complicadas, com jogos d’agua, pavilhões, etc. (Dicc. dos Architectos, vol. 1.ᵒ, pag. 62 e 395; 2.ᵒ, pag. 350 e 379).

Póde dizer-se que o jardim antigo é principalmente architectonico, e que o moderno é filho da pintura.

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa, a respeito de jardins ha livros antigos notaveis, especiaes; e tambem em obras que não tratam de cultura ou architectura dos jardins por incidente se topam vistas e desenhos interessantes.

Um certo in-folio grande, impresso em Roma, adornado com boas gravuras, e o titulo Villa Pamphilia ejusque palatium cum suis prospectibus, statuae, fontes, vivaria, theatro, areolae, plantarum viarumque ordines apresenta-nos grande numero de estatuas proprias para jardim e minuciosos desenhos dos terreiros ajardinados, que parecem imitar salvas de prata repoussée; sem uma arvore saliente; arbustos talhados, não muito altos, ornam os extremos. Era o jardim italiano, classico.

Numa obra de numismatica I Cesari in metallo raccolti nel Museu Farnese, por Pietro Piovene (Parma, 1727), ha lindas gravuras com muitos aspectos e detalhes dos jardins da Villa Madama, e do Palazzo di Caprarola (no tomo 1.ᵒ), mostrando bem a magnificencia, a nobreza d’essas bellas vivendas italianas.

Um allemão, Hirschfeld, escreveu uma vasta obra, de que ha versão franceza, em 4 volumes, Theorie de l’art des jardins (Leipzig, 1779-1783).

É trabalho notavel: trata dos jardins em varios pontos de vista, da sua historia e da historia das plantas, do aproveitamento das arvores segundo o seu effeito ou aspecto, das combinações, dos planos differentes. No 4.ᵒ volume vi a noticia de Guilherme Kent o criador da arte dos jardins em Inglaterra; era pintor e architecto. Descreve os trabalhos de Le Notre, grande jardineiro francez. N’isto de jardins ha escólas, muito bem definidas. Foi economica, principalmente, a razão porque a escóla de Kent venceu a de Le Notre; o jardim á antiga era de grande custeio; para se conservar bem era preciso trabalhar constantemente. Só admittia flores finas, raras; na Hollanda o enthusiasmo pela tulipa, a tulipomania, attingiu excessos. Kent introduzindo arvores e arbustos fez grande economia. Ha o jardim agradavel, o risonho, o majestoso, o romanesco; o jardim fidalgo, o burguez, o campestre, o publico, o academico, o monastico, finalmente o funebre.

O tal allemão chega mesmo a projectar jardim para de manhã, do meio dia, e da tarde; jardins para effeitos crepusculares. A cultura e a disposição do jardim variam com os climas, e com a abundancia das aguas.

É impossivel imitar nos paizes frios os jardins de Hespanha ou de Italia; querer implantar nos paizes do sul os arrelvados inglezes é arrojado. A relva nada custa em Inglaterra, e em Portugal a murta, o lirio, o cravo e a rosa não precisam cuidados.