Áquella mulher extraordinaria a quem só faltou outra patria que não fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vans pertenções de superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devi incitamentos e protecção litteraria, quando ainda no verdor dos annos dava os primeiros passos na estrada das lettras.

Apraz-me confessa-lo aqui, como outros muitos o fariam se a occasião se lhes offerecesse; porque o menor vislumbre d’engenho, a menor tentativa d’arte ou de sciencia achavam n’ella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos se alentavam; e d’isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da senhora marqueza d’Alorna não affectava já mais o tom pedagogico e quasi insolente de certos litteratos que ás vezes nem sequer entendem o que condemnam, e que tomam a brancura das proprias cans por titulo de sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta, e tinha não sei o que de natural e affectuoso que se recebia com tão bom animo como os louvores, de que não se mostrava escaça quando merecidos.

Uma virtude, rara nos homens de lettras, mais rara talvez entre as mulheres que se teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não alardearem escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era ao mesmo tempo facil e amena.

E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão bem, não dizemos a litteratura grega e romana, em que igualava os melhores, mas a moderna de quasi todas as nações da Europa, no que nenhum dos nossos portugueses porventura a igualou?


Ahi verá como em todas as phases da sua larga e não pouco tempestuosa carreira ella soube dar perenne testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade; verá que em quanto na terra natal primeiro a tyrannia, e depois a ignorancia e a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa estimação de principes, e de illustres personagens da republica das lettras. Ahi verá como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos annos no fóco das idéas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos as dias repetir essas idéas por homens de incontestavel talento, ella soube conservar pura a crença da sua infancia, e expirar no seio do christianismo. Ahi finalmente verá como as ausencias, por vezes involuntarias, da sua terra natal, não poderam fazer-lhe esquecer o amor que devemos a esta, ainda no meio das injustiças e violencias de todo o genero. ==(Panorama, pag. 403 e 404 do vol. de 1844, artigo assignado por A. Herculano).

A capella do palacio

Em 11 de fevereiro de 1903 se rezaram missas de corpo presente pela alma do marquez de Fronteira na pequena capella do palacio.

É um templosinho elegante com seu portico de columnas em estylo da renascença classica. Sobre a porta tem o letreiro: