Domingo de Ramos, 3 abril 1898.

Pela manhã cedo dei um pequeno passeio até á Casa da Pontinha, proxima da estrada militar. É casa antiga, com algumas alterações modernas; na parede que deita para a estrada, a pouca altura, está um marmore com lettreiro:

Louvado seja
o santissimo
sacramento.

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Superior á lapide está um quadro de azulejo; a Senhora da Conceição, em azul sobre o branco, de bom desenho, em moldura de azulejos policromos.

Proximo da Casa da Pontinha, na estrada que vem para Carnide, está uma casa quadrada, na ponta da horta do casal do Falcão, n’um angulo de muro, que conserva um friso ornamentado, uma grega singela em relevo de cal, um esgrafitto, datado «1622».

Depois ouvi a sineta das freiras, que sôa como uma voz debil, triste, e entrei na linda igreja. O capellão lia no seu missal a grande narrativa do triumpho em Jerusalem, que foi terminar na paixão, na cruz do Calvario, verdadeiro symbolo da vida humana, que a dias de puras alegrias e risonhas esperanças faz succeder horas de desespero e uma eternidade de angustias.

O capellão lançou a sua benção sobre os ramos, folhas de palmeira sem ornato algum, e deu-os pela grade do côro de baixo ás religiosas portuguezas. Entraram processionalmente as irmãs de S. José de Cluny, com as suas tunicas azues e mantos pretos; toucas brancas moldurando os rostos; atravessaram o cruzeiro e ajoelharam no degrau da capella-mór. Ahi receberam as palmas, os ramos do grande triumpho. Não havia musicas, nem canto; um grande silencio apenas. E retiraram na mesma ordem, e no mesmo silencio para a sua clausura.

Quantas estarão de marcha para as missões africanas!


Quinta-feira santa, 7 d’abril 1898.